Em um país onde o acesso à internet atinge mais de 183 milhões de pessoas e 91,7% dos internautas consomem notícias online diariamente, o brasileiro parece, paradoxalmente, cada vez mais distante da realidade informada. A queda drástica no hábito de leitura de jornais impressos — com apenas cerca de 10% da população mantendo o costume regular, segundo o Digital News Report 2025 do Instituto Reuters — reflete uma transformação profunda: a migração massiva para as redes sociais como principal fonte de informação.
Esse movimento não é neutro. Plataformas como WhatsApp, Instagram, Facebook e X (antigo Twitter) priorizam conteúdos virais, emocionais e algorítmicos, que frequentemente favorecem fake news em detrimento da apuração jornalística rigorosa. Pesquisas recentes apontam que quatro em cada dez brasileiros recebem desinformação diariamente, e um terço já admitiu ter acreditado em notícias falsas em algum momento. Em 2025, o Brasil consolidou-se como um dos países onde a crença em fake news é mais alta, com 88% das pessoas já caindo em alguma mentira detectada posteriormente, conforme levantamento do Instituto Locomotiva.
O resultado é um emburrecimento coletivo gradual: quanto menos as pessoas se informam por fontes verificadas e pluralizadas, mais vulneráveis ficam à manipulação. A desinformação não é apenas um equívoco passageiro; ela molda opiniões, influencia votos, alimenta polarizações e até afeta decisões econômicas cotidianas, como as recentes ondas de boatos sobre taxação do Pix que geraram pânico infundado.
Um sintoma alarmante desse processo aparece entre os jovens em formação: estudantes de ensino superior que declaram abertamente não acompanhar notícias. Pesquisas sobre o consumo de mídia por universitários brasileiros revelam que muitos priorizam conteúdos rápidos e pessoais, deixando de lado análises aprofundadas sobre política, economia e sociedade. Esse é um caso sério. A universidade, espaço por excelência de formação crítica, deveria estimular o acesso sistemático a notícias confiáveis para que os alunos construam opiniões baseadas em fatos, não em achismos ou em "conversas de boteco".
E é exatamente aí que reside o maior risco: a "conversa de boteco" — aquela troca informal de boatos ouvidos de "alguém que sabe" — tornou-se o padrão reprodutor da desinformação. São meros ecos de nada, repetidos sem critério, sem fonte, sem responsabilidade. O que começa como piada ou opinião descompromissada viraliza em grupos de família, WhatsApp e redes, ganhando status de "verdade" apenas pela repetição.
Enquanto isso, jornais e veículos profissionais — com equipes dedicadas à checagem, pluralidade de fontes e compromisso ético — perdem terreno. O jornalismo tradicional, que historicamente serviu como filtro contra boatos, é substituído por algoritmos que premiam engajamento emocional, não verdade factual.
O caminho para reverter esse quadro passa por educação midiática urgente nas escolas e universidades, incentivo à leitura crítica e valorização do jornalismo independente. Sem isso, o Brasil corre o risco de se tornar uma nação de alienados informados: conectados o tempo todo, mas cada vez mais desconectados da realidade. Um povo que não lê jornais, que não questiona fontes e que se contenta com fragmentos virais está, inevitavelmente, abrindo mão de sua capacidade de pensar por si mesmo.
Em um momento em que a desinformação impulsionada por IA e campanhas organizadas ganha escala inédita, a alienação não é mais um luxo — é uma ameaça à democracia, à coesão social e ao futuro coletivo. O Brasil dos alienados não é destino inevitável; é consequência de escolhas que ainda podemos mudar.













