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O fantasma de Stalin

Por Jornal A Bigorna 02/03/2017 00:05:18 1861
O fantasma de Stalin

Começou o ano e a Quaresma. Para a consciência brasílica, o dia de hoje assinala o início do ano civil. O que quer que possa ter ocorrido antes é mero ensaio para o que vem pela frente. Começam as labutas de 2017. A propósito, feliz Ano Novo, já que estamos em um verdadeiro primeiro de janeiro.

Vamos retroceder um século. Em março de 1917, foi derrubado o czar Nicolau II e começou a Revolução Russa. Ela transformou a face econômica do país. O perfil agrícola das estepes deu um salto nas décadas seguintes para uma potência industrial. Os planos quinquenais transformaram a Rússia em um dos grandes produtores de aço do planeta. A população passou de um governo autoritário dos czares para um governo autoritário de comissários do povo. As coletivizações forçadas no campo levaram a fome a áreas produtivas. O genocídio na Ucrânia (Holodomor), as repressões políticas, os campos de concentração e prisões para dissidentes (Gulags) trouxeram a morte para milhões.

A Revolução Russa teve um efeito imenso sobre o Ocidente. No ano de 1917 e subsequentes, muitas greves e agitações de trabalhadores marcaram lugares tão distantes como Madri e Nova York. Eram os anos “vermelhos”. Há cem anos, com visível orientação anarquista, explodiu em São Paulo uma das mais significativas greves operárias da história do País. Nos anos seguintes, começaria um declínio do chamado socialismo libertário. A ortodoxia soviética viera para ficar.

De muitas formas, a legislação trabalhista foi pensada no Ocidente para conter a sedução do comunismo. No caso específico do Brasil, Getúlio incorpora o Primeiro de Maio como data oficial, concede vários benefícios e controla os sindicatos. O mesmo Vargas mata e tortura militantes comunistas. Havia uma luta para absorver e liderar a causa operária.

Hoje, contemplamos a Revolução Russa com o olhar crítico pelo estado totalitário que se seguiu e pelo custo em vidas. Não era assim em 1917. Para muitas pessoas, desabrochava a esperança em Moscou. A opressão czarista fizera eclodir um movimento original e poderoso de libertação. Grandes pensadores, artistas e jornalistas apregoavam que o futuro raiava e o sol, como sempre, vinha do Oriente. Caio Prado Júnior, Tarsila do Amaral, o jornalista John Reed (autor de Dez Dias que Abalaram o Mundo) e outros escreviam e depunham sobre um mundo sem diferenças sociais, sem miséria nas ruas, com entusiasmo popular.

A cenografia demorou a cair. Em parte, pareciam as histórias das quase míticas aldeias modelo (Potemkim villages) que encantaram a czarina Catarina, a grande. Alguns intelectuais repetiram a experiência na URSS do século 20. Quase sempre vemos o que outros mostram ou nós mesmos desejamos ver.

O fato de a miséria e de a desigualdade no capitalismo ocidental serem enormes ajudava a compor o encantamento. Operários explorados, bolsões de cortiços por todo lado, governos que oprimiam trabalhadores: o Ocidente era a realidade, a Rússia, a utopia. A nascente URSS assomava como um novo mundo contra o decadente universo capitalista do pós Grande Guerra. Em 1917, o capitalismo matava nas trincheiras da Europa e nas colônias. O socialismo tornava-se a resposta errada para uma crítica correta.

A cegueira sobre o que ocorria na URSS foi notável. Raymond Aron afirmou (O Ópio dos Intelectuais) que a sedução socialista funcionava como um elemento viciante, um ópio, uma maneira de perturbar a visão. Abandonar vícios sólidos é um desafio, especialmente para formadores de opinião.

Após a Segunda Guerra, o prestígio soviético ainda estava em alta. Stalin era a grande força militar que derrubara o nazismo. A resistência dos russos na batalha de Stalingrado fora épica. Houve solidariedade mundial ao sofrido povo da cidade das margens do Rio Volga. Carlos Drummond de Andrade fez um poema: “Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente! As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio”. Havia conteúdo romântico na admiração. Poucos destacavam que era um enfrentamento de morte entre dois Estados totalitários: o nazista e o soviético.

A invasão da Hungria (1956) inaugurou uma mudança. A desestalinização promovida após a morte do “pai dos povos” tornou pública a lista de crimes do georgiano. Sartre escreveu O Fantasma de Stalin, um petardo contra o modelo autoritário do socialismo soviético.

Custou a muitos sair da zona de conforto da crença. Um recurso paliativo foi destacar que a URSS era um desvio do ideal socialista. O verdadeiro socialismo estaria em lugares como a Albânia ou na Revolução Cultural de Mao. Esta última encantava manifestantes em Paris e matava centenas de milhares de jovens na China. O socialismo tinha virado um projeto mais interessante nos cafés do Quartier Latin do que em Pequim ou Moscou.

Há cem anos, a Revolução Russa tinha começado a mudar o mundo. Simpatia ou antipatia pelo socialismo altera pouco o fato de 1917 ser um imenso marco histórico. A saída da Rússia da Grande Guerra, a tentativa de expansão do socialismo pelo mundo, a decisiva participação soviética na Segunda Guerra, a legislação trabalhista no Ocidente, a Revolução Chinesa e a Guerra da Coreia: quase tudo tem origem nos fatos que agora comemoram cem anos.

Matamos em nome do capital e em oposição ao capital. Matou-se em nome de Deus e matou-se em nome da negativa de Deus. Houve genocídio no Congo pelo capitalista e católico Rei Leopoldo da Bélgica. Houve genocídio na Ucrânia pelo ateu socialista Stalin. Parece que matar é um prazer acima do modelo político ou da opção religiosa. O ano de 1917 também originou um choque ideológico profundo entre o capitalismo e o socialismo. Na Europa, a queda do muro de Berlim e o fim da URSS marcaram o fim da Guerra Fria. No Brasil, pelo contrário, descobrimos há pouco os prazeres da discussão de um mundo bipolar. A Revolução Russa é uma senhora centenária. Nossa Guerra Fria é um adolescente mimado e esperneante.(DoEstadão)

*Por Leandro Karnal

 

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