Todas as tardes, pontualmente às quatro, o senhor Artur se sentava à janela de sua sala. A vista não era nada especial: um pedaço de rua com um poste torto, duas ou três mangueiras raquíticas e, ao longe, o muro cinza da escola municipal. Mas para Artur, aquela era sua vigília pessoal, o momento de observar o mundo passar devagar, como um rio cansado.
Foi numa dessas tardes que ele notou o menino. Sentado no meio-fio, em frente ao portão da escola, encolhido sobre uma mochila gasta, ele não brincava, não conversava com os outros. Apenas existia, com uma expressão de ausência que parecia pesada demais para seus ombros franzinos. Artur passou dias observando aquele ritual de solidão. Até que, numa terça-feira de chuva fina, viu o menino encolher-se ainda mais, tentando abrigar um caderno com o corpo. Algo dentro do peito do velho, um lugar que ele julgava adormecido, deu um pulso.
Desceu as escadas devagar, sentindo cada pequeno estalo nos joelhos. Parou diante do menino, abrindo o guarda-chuva grande, de lona preta, que mais parecia uma tenda.
“Aqui embaixo é mais seco”, disse, a voz rouca pelo desuso.
O menino ergueu o rosto, assustado. Nos olhos, Artur leu o medo rápido de quem está acostumado a repreensões. Mas viu também um brilho, uma curiosidade. Era o olhar de Lucas, de treze anos, aluno do sétimo ano, que carregava nas costas não só a mochila, mas o silêncio pesado de uma casa onde os gritos eram mais comuns que as palavras, e os espancamentos na escola eram a moeda corrente para quem era "diferente" – no caso dele, por gostar de ler.
A partir daquela tarde, a janela de Artur ganhou um propósito. Lucas começou a aparecer depois da aula. A princípio, só para tomar um suco gelado, fugindo por uma hora da casa barulhenta. Depois, as lições de matemática, que ele não entendia, foram parar sobre a mesa de centro do apartamento, entre os copos de guaraná e os pires com bolachas de maisena.
Artur, engenheiro aposentado, redescobriu as fórmulas e os teoremas como quem encontra velhos amigos esquecidos. Ensinava com paciência de construtor, mostrando como cada número era uma peça, e cada problema, uma estrutura a se erguer. Lucas ouvia, atento, e aquele mundo abstrato e ordenado era um porto seguro contra o caos que o cercava.
Mas as lições iam além dos livros. Em meio a exercícios de frações, Artur soltava, como quem não quer nada:
“Você sabia que as mangueiras dão flor antes do fruto? A flor é miúda, quase não se vê. Mas sem ela, não tem manga. Às vezes, a coisa mais importante é a que a gente quase não percebe.”
Ou, apontando para o poste torto ao luar:
“Olhe a lua hoje. Ela não brilha por conta própria, sabia? Ela só reflete a luz do sol. Mas que beleza faz, não é? Às vezes, nossa luz é só um reflexo do que recebemos dos outros.”
Lucas ouvia, absorvendo aquelas palavras como terra seca absorve a primeira chuva. No olhar do menino, Artur via o assombro diante de um universo que era muito mais do que porradas e xingamentos. Via o deslumbramento com as maravilhas simples: a explicação perfeita de uma equação, o cheiro do café passado na hora, a história de como se constrói uma ponte. O velho lhe mostrava que a vida tinha uma arquitetura, uma lógica de beleza que podia ser aprendida, e que ele, Lucas, tinha o direito de conhecê-la.
O menino começou a mudar. Os olhos, antes baixos, buscavam agora as estrelas que Artur apontava em mapas celestes improvisados. Os ombros, antes curvados, erguiam-se um pouco mais. Na escola, as agressões continuavam, mas agora doíam de um jeito diferente. Doíam como algo que não o definia mais, mas que ele teria que superar, como um problema de matemática difícil, mas não insolúvel.
Certa vez, Lucas chegou com um hematoma roxo no braço e os olhos vermelhos, mas sem lágrimas. Olhou firme para Artur e disse:
“O senhor disse que a lua reflete a luz mesmo na noite mais escura. Eu quero ser como a lua, seu Artur. Não quero guardar a escuridão deles dentro de mim.”
Artur sentiu um nó na garganta. Viu, naquele instante, não um menino maltratado, mas um jovem construtor, pegando as ferramentas que lhe foram oferecidas – o conhecimento, a atenção, a beleza do mundo – e começando a erguer seu próprio destino.
O destino de Lucas não se tornou um conto de fadas repentino. As coisas não mudaram da noite para o dia. Mas uma esperança, sólida e quieta como a presença do velho à janela, fincou raiz em seu coração. Ele aprendeu que sua vida não precisava ser uma réplica do que sofria. Poderia ser um projeto próprio, desenhado com a régua da perseverança e o compasso dos sonhos que Artur lhe ajudou a encontrar.
Agora, às quatro da tarde, são duas silhuetas à janela. Um velho que redescobriu o mundo ao mostrá-lo a um jovem. E um jovem que, pela primeira vez, enxerga no horizonte, além do muro cinza da escola, um caminho de infinitas possibilidades, iluminado pelas estrelas que um homem bondoso lhe ensinou a ver.
(*Imagem gerada por IA)













