Vivemos uma era de paradoxos profundos. Nunca a humanidade esteve tão conectada pela tecnologia, pelo comércio e pela informação. Contudo, esse mesmo mundo interligado assiste, com uma sensação crescente de impotência, à multiplicação de conflitos armados que rasgam fronteiras e desafiam a ordem estabelecida. A impressão de que estamos mergulhando em um período de guerra generalizada não é um exagero retórico, mas um reflexo de uma realidade geopolítica fragmentada e perigosamente instável. De Kiev a Gaza, de Cartum a Sanaa, o mapa-múndi acende-se com os pontos vermelhos da violência, cada um com suas causas complexas, mas todos contribuindo para um sentimento global de crise.
O panorama atual é uma colcha de retalhos feita de sofrimento. Na Europa, a guerra na Ucrânia completa anos, transformando cidades em ruínas e desencadeando ondas de choque nos mercados de energia e alimentos em todo o planeta. É o conflito convencional mais significativo desde 1945, uma batalha direta que redefine alianças e ameaças continentais. No Oriente Médio, o ciclo interminável de violência entre Israel e o Hamas explodiu mais uma vez, com uma ferocidade que chocou a consciência mundial e aprofundou uma das crises humanitárias mais dramáticas do nosso tempo no enclave de Gaza.
Enquanto isso, na África, o Sudão despedaça-se em uma luta fratricida entre forças militares que mergulhou milhões no caos e na fome. Na República Democrática do Congo, a riqueza mineral do subsolo alimenta décadas de conflito étnico e pilhagem. No Sudeste Asiático, Myanmar vive uma guerra civil sangrenta após o golpe militar que silenciou uma frágil democracia. E na região do Sahel, uma combinação letal de extremismo, pobreza e golpes de Estado cria um vazio de poder onde a violência se torna endêmica. Estes são apenas os focos mais visíveis em um planeta onde dezenas de conflitos de menor escala ou intensidade continuam a queimar, muitas vezes longe dos holofotes da grande imprensa.
Neste cenário, a crise venezuelana destaca-se no continente americano como um epicentro de tensão com ramificações globais. A insistência dos Estados Unidos em manter o regime de Nicolás Maduro sob máxima pressão, através de um regime de sanções considerado o mais severo do mundo, é frequentemente resumida a uma palavra: petróleo. E, de fato, o componente energético é crucial. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo bruto do planeta, um ativo estratégico de valor incomensurável em um mundo ainda dependente de hidrocarbonetos. Controlar ou influenciar esse fluxo é uma questão de segurança nacional e vantagem geopolítica para qualquer grande potência.
Contudo, reduzir o interesse norte-americano apenas ao ouro negro é uma simplificação perigosa. A política dos EUA em relação a Caracas é também um capítulo da longa e conturbada história da Doutrina Monroe e da visão de Washington sobre a América Latina como sua esfera de influência natural. Os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, com seu projeto socialista bolivariano e suas estreitas alianças com Rússia, China e Irã, representaram um desafio direto a essa hegemonia. Alterar o regime em Caracas tornou-se, portanto, um objetivo que mistura ideologia, segurança regional e a velha disputa por zonas de influência. A isso soma-se a poderosa narrativa da defesa da democracia e dos direitos humanos, bandeiras erguidas para justificar a pressão internacional, e a influência política de uma significativa diáspora venezuelana, particularmente nos Estados Unidos.
A simultaneidade e a interconexão destas crises levantam uma questão alarmante: estamos perdendo o controle? A erosão do multilateralismo, a falência de instituições criadas para manter a paz, o retorno de uma retórica de confronto entre blocos e a militarização das relações internacionais sugerem que sim. A guerra na Ucrânia já é, em muitos aspectos, um conflito por procuração entre a OTAN e a Rússia. Qualquer escalada no Estreito de Taiwan poderia colocar Estados Unidos e China em rota de colisão direta. Os conflitos no Oriente Médio são barris de pólvora com potenciais regionais ilimitados.
Este é o temor que paira sobre o século XXI: a convergência e a escalada. O medo não é apenas de um “mundo com guerras”, mas de um “mundo em guerra” – um estado de beligerância total e difusa, onde as cadeias de abastecimento globais se rompem, as alianças se fortalecem em blocos hostis, a diplomacia é sufocada pelo ruído das armas e a ideia de uma comunidade internacional torna-se uma relíquia do passado. A linha que separa estes dois cenários é tênue, e cada novo confronto, cada falha na negociação, nos arrasta um pouco mais para perto do abismo.
esperança, frágil como é, reside na memória histórica dos desastres passados e na capacidade de reavivar os canais do diálogo. O custo de um mundo em guerra total, num planeta nuclear e ecologicamente frágil, seria incomensurável. O desafio deste tempo é reconhecer os sinais de alerta que piscam em todos os continentes e escolher um caminho diferente antes que a escalada torne a escolha impossível. O controle ainda não se perdeu por completo, mas está escorregando rapidamente entre os dedos de uma comunidade internacional dividida e descrente. O futuro próximo dirá se a humanidade conseguirá segurá-lo.
A humanidade marcha no caminho inverso de seres-humanos pacíficos, estaremos logo, lutando uns contra os outros, seria o fim? Não, mas o começo do fim!
*Por André Guazzelli













