O caminhão frigorífico estacionou no Instituto Médico-Legal (IML) de Manaus por volta do meio-dia da segunda-feira, dia 2. Trazia corpos mutilados, decapitados ou carbonizados no massacre que ocorrera horas antes no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, mais conhecido por Compaj. Pelo número de braços, os funcionários concluíram que havia 56 mortos, mas o inventário da carnificina apenas começava.

Os peritos contaram 38 cabeças separadas do corpo. Descobriram que os assassinos arrancaram coração, fígado e intestino de parte das vítimas. Nos picos de violência, o IML de Manaus recebe no máximo seis cadáveres por dia. Havia ali 60 de uma vez – 56 trazidos do Compaj, mais quatro do presídio de Puraquequara, nas cercanias de Manaus. Nas horas seguintes, mães, filhas e mulheres de presos começaram a se aglomerar na porta do prédio velho, com o matagal avançando sobre o pátio e uma guarita há muito tempo abandonada. O IML só podia abrigar 20 corpos nas gavetas refrigeradas, então a maior parte ficou no caminhão frigorífico. Faltava espaço para lidar com uma tragédia penitenciária menor apenas que o massacre do Carandiru, perpetrado em 1992.

O perito criminal Joe Braga pediu às famílias fotos e dicas sobre cicatrizes ou tatuagens que pudessem ajudar na identificação dos corpos. Carla, de 19 anos, acreditava que o namorado fora morto. Ela dormiu no dia 31 de dezembro dentro do presídio com Paulo Henrique, de 22 anos, preso por tráfico de drogas e homicídio. Carla só podia fornecer uma foto postada nas redes sociais, que exibia o rosto dilacerado de Paulo. Muitas pessoas ali tinham apenas imagens fortes nos celulares, de vídeos postados em redes sociais, nos quais matadores cobertos por capuzes e toucas riam segurando cabeças decepadas ou posando ao lado de gente mutilada. Ouvindo o choro e os gritos no portão, funcionários do IML tentavam trabalhar. As impressões digitais dos presos não são arquivadas em meio digital, como em países desenvolvidos, mas em cópias de papel. Os funcionários tinham de comparar uma montanha de fichas com as amostras de digitais colhidas dos corpos.
O Compaj enviou uma lista com 75 nomes de possíveis mortos. O diretor do Departamento de Perícia, Jefferson Mendes, ficou mais preocupado do que agradecido. Como o presídio elaborou tal lista? Não bastava a simples conferência nas celas e dar como mortos os faltosos, pois 112 presos haviam fugido.

Os fugitivos, claro, gostariam de ser dados como mortos. Na conferência da impressão digital, foi possível identificar 36 corpos. Os exames da arcada dentária permitiram que uma das 38 cabeças decepadas fosse ligada a seu dono. As demais dependiam de testes de DNA feitos com material coletado entre familiares. “É como um quebra-cabeça. Não sei se uso a expressão adequada, mas montamos corpos aqui”, afirma Mendes. Na quinta-feira, 49 cadáveres estavam identificados.

A produção dos cadáveres começara horas antes. No domingo à noite, o juiz da Vara de Execuções Penais, Luís Carlos Valois, dormia em casa quando bateram a sua porta para ir ao Compaj, onde começava uma rebelião. Por volta das 22 horas, a tropa de choque ameaçava invadir o cárcere, superlotado com 1.224 presos onde deveriam estar no máximo 454. Os líderes da rebelião pediram à polícia para conversar com Valois. Ele recebeu de dois presos um papel com quatro reivindicações: a Polícia Militar não poderia invadir o prédio, as autoridades garantiriam a integridade física dos rebelados, as visitas e o banho de sol seriam mantidos e não ocorreria transferência para presídio federal. “Nunca vi rebelião em que não pedem para agilizar processos da execução da pena”, diz Valois. “No fundo, foi só um pretexto para matar.”(Fonte:Época)













