A neurociência tem nos mostrado algo fundamental sobre o Transtorno do Espectro Autista: o cérebro autista não é um cérebro “defeituoso”, mas um cérebro que se organiza e processa o mundo de forma diferente. Isso muda completamente a maneira como olhamos para a criança, para a família e para o processo de desenvolvimento.
Hoje sabemos que o TEA está relacionado a diferenças na conectividade cerebral, na forma como os neurônios se comunicam e integram informações sensoriais, emocionais e linguísticas. Essas diferenças explicam por que algumas crianças apresentam hipersensibilidade a sons, dificuldades na comunicação ou comportamentos repetitivos. Não são “birras” ou “falta de educação”, mas respostas neurológicas a um mundo que muitas vezes é intenso demais.
A neurociência também reforça a importância da plasticidade cerebral. O cérebro muda, aprende e se reorganiza ao longo da vida, especialmente na infância. Isso significa que estímulos adequados, ambientes seguros, relações afetivas e intervenções bem conduzidas podem favorecer o desenvolvimento da comunicação, da autonomia e da regulação emocional. Nada está “fechado” ou “determinado” para sempre.
Outro grande ensinamento é que o desenvolvimento no TEA não é linear. Cada criança tem seu próprio tempo e sua própria forma de avançar. Comparações constantes com padrões rígidos só aumentam a ansiedade da família e diminuem a percepção das pequenas conquistas, que são imensas quando vistas pelo olhar do respeito à singularidade.
A neurociência também tem mostrado o papel central do vínculo. O cérebro se desenvolve na relação. É no afeto, na previsibilidade, na segurança emocional e na presença cuidadosa dos adultos que a criança encontra base para explorar o mundo e se comunicar. Família e escola não são apenas apoio, são parte ativa do processo de desenvolvimento.
Por fim, talvez a maior lição que a neurociência nos traz seja a de que falar de TEA é falar de diversidade humana. Não existe um único autismo, existem pessoas no espectro, cada uma com suas potencialidades, desafios e formas próprias de existir.
Quando entendemos isso, deixamos de tentar “consertar” a criança e passamos a buscar formas de compreendê-la, apoiá-la e respeitá-la. A ciência não nos ensina apenas sobre o cérebro, ela nos ensina sobre humanidade.
Sobre a colunista:
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, TEA, Educação Especial e Inclusiva, com capacitação em TEA pela Universidade de Harvard. É mãe atípica, estudante de Fonoaudiologia e mestranda em Distúrbios da Fala, Linguagem e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
Atenção: Esta é uma coluna informativa. Em caso de dúvidas específicas, procure sempre um profissional qualificado.













