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Palanque do Zé

Palanque do Zé #400 – Precisamos falar da "merdificação digital"

Por Jornal A Bigorna 05/04/2026 05:00:00 80
Palanque do Zé #400 – Precisamos falar da

Existe um fenômeno silencioso que governa nossa relação com a tecnologia, e ele tem um nome tão preciso quanto pouco elegante: “enshittification” — ou, em bom português, “merdificação”.

O termo foi cunhado pelo escritor Cory Doctorow para descrever o ciclo quase inevitável pelo qual produtos e plataformas digitais percorrem: Nascem úteis, ganham usuários, prendem esses usuários — e então tiram dinheiro deles.

O roteiro é sempre o mesmo. Primeiro, a empresa oferece um serviço bom e barato, às vezes gratuito. Depois, cria barreiras para que o usuário não saia — o famoso “vendor lock-in”, aquele estado em que seus dados, documentos e histórico estão tão integrados ao ecossistema que migrar parece mais caro do que aguentar os abusos.

Por fim, com o usuário preso, vem o terceiro ato: Anúncios invasivos, funcionalidades removidas ou que passam a funcionar somente com pagamento, atendimento substituído por robôs inúteis e uma degradação progressiva da experiência que parece ser projetada especialmente para nos frustrar enquanto nos mantém prisioneiros.

O Conselho de Consumidores da Noruega documentou esse processo com admirável precisão num relatório chamado “Breaking Free”.

Os exemplos são tão familiares que doem: Fabricantes de automóveis que transformam o rádio e o aquecimento do banco em assinaturas mensais — funções que já existiam no hardware que você pagou. Empresas de nuvem que mantêm suas fotos de família como reféns de planos cada vez mais caros. Plataformas de busca que inundam os resultados com conteúdo patrocinado até que encontrar uma informação real se torne uma tarefa arqueológica.

Eu mesmo me dei mal muito recentemente. Tentei abandonar o Microsoft Word no celular, que apresentava um bug irritante — impossível selecionar o texto todo para justificar, ajustar fonte, mudar o tamanho. Simples. Básico. Elementar.

Mas o que encontrei ao buscar alternativas foi uma galeria de mediocridades cada qual com seu defeito, ou “merdificação”, como queira:

- O Google Docs falha em linhas tracejadas e hiperlinks.

- O WPS Office é dificílimo de operar no celular, pula de página, deu erro de compatibilidade ao abrir no Word e não tem corretor em português.

- O Zoho Writer tem muita propaganda e não convence.

- O OnlyOffice não capitaliza automaticamente os parágrafos e apresenta problemas de pontuação.

- O Proton Docs é promissor — criptografia de ponta a ponta, arquitetura sólida — mas ainda é um projeto em construção: Sem aplicativo nativo, sem corretor em português brasileiro, e para compartilhar um arquivo é preciso fazer download primeiro.

- O LibreOffice, a mais robusta alternativa ao Pacote Office de todos em desktop, ainda não tem versão móvel consolidada, e quando tiver, não será mantido pela Open Foundation, o que gera preocupações com privacidade.

- O Pages da Apple é excelente, mas funciona apenas dentro do jardim murado da empresa do Tio Steve — e a própria Apple tem o hábito peculiar de incentivar o pacote Office nos seus dispositivos, em raro momento de “o do concorrente é melhor”.

O episódio parece trivial, somente aplicativos ruins feito por gente burra. Mas é exatamente aí que a “merdificação” opera com mais eficácia: Nos pequenos inconvenientes que acumulam resignação. Você não abandona uma plataforma por um grande escândalo — você fica preso porque sair custa tempo, compatibilidade e aprendizado, e as alternativas foram deliberadamente mantidas piores ou menores.

O relatório norueguês chama esse mecanismo de “walled garden” — jardim murado. A incompatibilidade entre formatos, entre sistemas, entre ecossistemas não é acidente de engenharia. É política de produto. Quando seu arquivo .docx abre com formatação quebrada em outro editor, isso não é bug; é funcionalidade disfarçada de limitação técnica.

Eu tinha uma Professora de Direito, na época da faculdade, que dizia: Cuidado! Quando você achar alguém muito estúpido, a chance de o estúpido ser você é muito grande...

Mais uma vez, ela tem razão. Os “erros” de aplicativos, programas e sites são, em sua maioria, método. “Merdificação”, no português simples.

A inteligência artificial generativa, longe de resolver o problema, veio acelerá-lo. A internet já está sendo inundada pelo que os especialistas chamam de AI slop — conteúdo de baixa qualidade produzido em escala industrial para preencher páginas, forçar engajamento e empurrar usuários para assinaturas premium que prometem "a versão sem lixo".

O modelo de negócios tornou-se circular e perverso: A empresa degrada o produto gratuito, o usuário paga para escapar da degradação, e o dinheiro financia a próxima rodada de degradação.

Mas o que fazer?

O documento norueguês propõe caminhos que qualquer democracia deveria considerar seriamente: Garantir a interoperabilidade entre plataformas, para que os dados do usuário não sejam moeda de aprisionamento; assegurar a neutralidade de dispositivos, permitindo que cada pessoa instale o que quiser no hardware que comprou com o próprio dinheiro; aplicar as leis existentes com multas que efetivamente doam nas finanças das Big Techs, e não apenas arranhem o caixa; investir em alternativas descentralizadas e de código aberto, com suporte público onde o mercado falha; e eliminar os conflitos de interesse estruturais entre quem controla a infraestrutura e quem oferece serviços sobre ela.

A merdificação não é uma lei da natureza. É uma escolha — reiterada a cada trimestre, a cada reunião de conselho, a cada meta de crescimento calculada sobre a paciência do usuário. Reconhecê-la é o primeiro passo. Exigir que reguladores, legisladores e mercado a combatam é o segundo.

O progresso tecnológico não precisa ser um ciclo de sedução e exploração. Mas, enquanto as regras do jogo permitirem que plataformas lucrem mais ao prender do que ao servir, a “merdificação” seguirá seu curso — silenciosa, incremental e, para os seus autores, muito rentável.

--- -- ---

Abaixo, apresento os vídeos que me inspiraram a escrever este artigo

 

Diolinux - https://www.youtube.com/watch?v=2q-LNtX1B84

 

(Em norueguês – Use o tradutor!!!)

Conselho do Consumidor Norueguês - https://www.youtube.com/watch?v=T4Upf_B9RLQ

 

Te garanto que assistir aos dois vídeos vale o seu tempo. O primeiro é técnico e intuitivo, enquanto que o segundo, apesar de ser governamental, é engraçado. Até se você, assim como eu, não falar norueguês!

 

--- -- ---

 

Chegamos ao Palanque de número 400!!!

 

Mais uma vez, gostaria de agradecer publicamente ao amigo André Guazzelli, por me permitir escrever sobre qualquer coisa, nos meus termos.

 

E, obviamente, não existiria Palanque do Zé sem o público do Zé. Muito obrigado por tornarem o meu sonho, realidade.

 

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Os conteúdos publicados no “Palanque do Zé” não refletem, necessariamente, a opinião do Jornal A Bigorna. Assim, são de total responsabilidade do Autor, as informações, juízos de valor e conceitos aqui divulgados.

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