Crônica
REI DO GADO FRUSTRADO
José Carlos Santos Peres
Um amigo dos meus tempos de Sabesp tem terras lá pras bandas de Coronel Macedo... Nelas, árvores esparsas, nhambus barulhentos, pastos dimensionados para engorda, e aguadas das boas.
Muitas cabeças de nelore, um tipo bonito de animal: olhar molhado, orelhas antenadas aos movimentos. E curioso! No que uma codorna levanta voo derrubando o acento circunflexo ele saca primeiro. Lindos, em bandos ariscos que se soltam e se amarram num balé de cisnes soltos no pasto.
Mas é muito pasto para pouco gado, diz o amigo, alargando a rima... Há uma relação de não sei quantos animais para não sei quanto de terra. E ele gosta - e precisa - rodar os bichos: quando o capim rareia num determinado local no outro o alimento está garantido.
E por que estou dizendo tudo isso? É que...
Como sobram espaços o amigo pretende aumentar o número de bois e aí, não sei por que cargas d´agua, ele viu neste cronista – mal sei distinguir boi de elefante - o sócio ideal para sermos os reis do gado daquela região.
À sombra de um jambolão, descansando o Nike na borda de um cocho com sal tive a primeira aula sobre a nova atividade, a qual, segundo o meu quase sócio, é a mais rentável do país, no momento.
Tão entusiasmado estava que já pensava no tamanho do chapéu, no tipo de bota e se me cairia bem um desses fivelões dourados... E um cavalo! Pecuarista sem cavalo é ciclista sem bicicleta.
Estávamos para sacramentar a sociedade. Eu teria uma participação menor na partilha porque as terras são dele, embora o rei do gado aqui já estivesse a pensar em alguma coisa lá para as bandas de Goiás...
Então, fiz a pergunta inevitável:
- Depois, com os bichinhos bem nutridos...
- Vendemos para o matadouro/frigorífico em Bauru
- Não vai me dizer que...
- Para serem mortos! Esquartejados! E os pedaços embalados e vendidos para açougues, supermercados.... E daí, meu amigo, para as mesas dos consumidores. O povo vai comer nossas crias.
Então olhei os boizinhos correndo pelo pasto espantando nhambus... Um deles se achegou. Tomei do sal em uma das mãos e o bicho veio, devagar... Assustado de início, carinhoso em seguida, deixando-se ao afago.
Ah como é quente e áspera a língua de um nelore... Que incrível simbiose se estabelece quando o contato – homem-bicho - se dá. A vida palpitando, na palma da mão. Literalmente!
Meu futuro de pecuarista, meus amigos, durou apenas uma manhã, à sombra de um Jambolão, lá em Coronel Macedo.













