Por Igor Gielow - A crise da segurança pública que ameaça se espalhar do Espírito Santo para o Rio é, de longe, o maior risco institucional que o país enfrenta neste momento.
A conjuntura é perfeita para o desastre. Há pelo menos três fatores concorrendo para isso.
Primeiro, os Estados estão, em média, com sérios problemas de solvência.
O Rio virou exemplo de manual sobre como se quebra uma grande economia regional, e o acordo costurado entre Planalto, Estado e Supremo Tribunal Federal para tentar resolver a situação na prática só irá piorar as coisas médio prazo.
No Espírito Santo, o problema é diverso, dado que as contas estão em dia. Lá existe, de fato, uma reação corporativa à austeridade necessária para evitar a quebradeira. A bandidagem aproveitou, e é de se perguntar quem irá pagar a conta moral das dezenas de mortos que se acumulam desde o início da crise.
Segundo, existe uma questão estrutural. Polícia pode fazer greve? O senso comum diz que não, mas no Brasil isso é uma quimera, e as tais "famílias de militares" fazem o serviço sujo e os comandos fingem que as respeitam. Hipocrisia sem fim, e azar de quem acabar baleado no processo.
Por outro lado, é igualmente verdade que os PMs são submetidos a regimes salariais quase análogos à servidão em alguns Estados. E que as regras draconianas herdadas da estrutura militar das corporações não favorecem discussões democráticas sobre cargos e salários. Isso dito, não existe desculpa para quem protesta com arma na mão –ou a deixa no coldre com o mesmo propósito.
Terceiro, há a dissolução da moral da política. Como no presidencialismo brasileiro todo problema se direciona ao terceiro andar do Palácio do Planalto, queira a Constituição ou não, a crise atinge o governo Michel Temer (PMDB) em um momento delicadíssimo.
O Ministério da Justiça, que Temer pretende ser também da Segurança Pública, está acéfalo com a indicação do seu titular uma vaga no Supremo. O presidente está em pleno movimento para montar a reação possível aos efeitos da Operação Lava Jato contra a classe política que o apoia, o que dificulta a escolha de um nome certeiro para lidar com questões tão prementes.
Paradoxalmente, portanto, o momento de maior força política de Temer é igualmente aquele que o deixa mais exposto aos efeitos de uma crise que não estava nos planos. A solução típica de envio de tropas federais, que geram aquelas fotos vazias de blindados posando de guarda da esquina, foi contestada de forma inédita nas ruas de Vitória, demandando reforço e sugerindo a necessidade de um novo padrão operacional para situações análogas.
Se a situação se agravar no Rio, Estado que foi quebrado por obra do conluio criminoso entre a administração do PMDB estadual e do PT federal, os mortos tenderão a exalar seu cheiro não ao rés do Palácio Guanabara. O Planalto parece um destino mais provável.
Naturalmente, é preciso cuidado com a avaliação da crise nesta era de pós-verdades. A muitos interessa a impressão cataclísmica no balneário mais famoso do país. Mas subestimar o risco é igualmente um problema. Temer, tendo operado a pacificação da PM paulista na esteira do massacre do Carandiru em 1992, quando assumiu a segurança paulista, tem um desafio bem maior pela frente.













