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Sete décadas depois, Avaré ainda está em débito com seus pracinhas

Por Jornal A Bigorna 27/06/2017 13:33:00 2434
Sete décadas depois, Avaré ainda está em débito com seus pracinhas

História

Santo de casa não faz milagre, nem mesmo após ajudar a derrotar alemães na Itália. De volta ao país, os integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) enfrentariam uma batalha ainda mais dura que a vivenciada no front.

A existência do grupo era um empecilho para o governo em 1945. Na contraditória condição de ser um ditador que havia lutado ao lado de democracias na 2ª Guerra Mundial, Getúlio Vargas tratou rapidamente de desmobilizar a unidade assim que os expedicionários botaram os pés no Brasil. Queria era evitar um levante influenciado pelos ideais democráticos defendidos no conflito pela Inglaterra, França e Estados Unidos.

O pracinha Rufino Santos relatou a penúria pela qual passaram alguns ex-combatentes. “Nós viemos embora e ficamos jogados na rua, sem direito a nada. Tinha ex-combatente em São Paulo sentado na calçada pedindo esmola”, contou.

Segundo ele, as condições melhoraram um pouco quando “o militar botou o cara para correr”. “Os ex-combatentes foram reformados e colocados no posto de 2º sargento para que recebessem um salário um pouquinho melhor. Nos deram essa promoção e a situação melhorou. O governo militar tomou providência”, diz, se referindo ao general Eurico Gaspar Dutra, um dos responsáveis pela queda de Getúlio e que assumiria o país em janeiro de 1946 depois de vencer as eleições.

Mesmo com o restabelecimento do sistema democrático, “os feitos da FEB na guerra foram sendo esquecidos e hoje muito pouco se conhece sobre as batalhas de Monte Castelo, Castelnuovo, Montese, Camaiore e tantas outras regiões da Itália libertadas pelos soldados brasileiros”, salienta o Portal FEB, site que busca resgatar e preservar a história dos expedicionários.

Se a conjuntura nacional era desanimadora, a circunstância local tampouco apresentaria sinais furtivos, embora de início se mostrasse favorável. Em seu livro “Avaré em memória viva – volume II”, o historiador Gesiel Júnior relata que os soldados foram recebidos com festa em 14 de novembro de 1945. “Nesse festivo dia foi celebrada missa campal pelo padre Salústio Rodrigues Machado na qual compareceram estudantes, autoridades e todos os expedicionários”, relata.

A recepção foi detalhada por Edmundo Trench, que voltara pouco antes, em 7 de outubro. Assim que chegou à antiga estação de Avaré, ele notou uma concentração na plataforma. Chegou a pensar que se tratava da visita de algum político. Surpreso, ele e mais dois pracinhas da região que o acompanhavam foram levados para o Largo São João, onde receberam presentes e foram homenageados em discursos. Décadas depois, porém, ele relataria às filhas a sensação de esquecimento em relação aos expedicionários.

Excetuando o Monumento ao Pracinha, situado no Largo São João, o poder público pouco contribuiu para perpetuar o feito. A não ser pela Maratona Sérgio Bernardino, espécie de gincana cultural que os alunos disputavam durante o regime militar, os pracinhas avareenses foram palidamente lembrados em escolas do município.

Praticamente no ostracismo, as memórias dos combatentes ficaram reservadas ao ambiente familiar, de onde só saíam muito raramente. Sem interesse por parte da sociedade e com a ausência durante décadas de um trabalho histórico que inventariasse o legado, uma parte significativa delas acabou sepultada junto com seus protagonistas.

O Dia da Vitória, celebrado em 8 de maio, nacionalmente associado ao legado de ex-combatentes, foi solenemente ignorado quando da criação em 2010 do Calendário Oficial de Eventos da Estância Turística de Avaré. Havia o Dia Municipal da Reciclagem, o Dia da Marcha para Jesus, o Dia da Solidariedade, o Dia da Jornada da Cidade Sem Meu Carro. Nem mesmo o Dia da Comunidade Italiana foi capaz de sugerir aos legisladores uma data relacionada aos pracinhas avareenses.

Atualmente, o Dia da Vitória permanece oficialmente fora do Calendário Oficial de Eventos, mas passou a ser celebrado há cerca de quatro anos. Mas ainda é pouco. “O ideal é que houvesse nas escolas municipais mais ênfase no ensino de história para os pequeninos desde cedo saberem das lutas da FEB. Porém, até agora nenhuma iniciativa existe neste sentido. Falta consciência histórica entre os próprios educadores”, avalia Gesiel Júnior, que afirma ainda que o descaso se dá também nas esferas estadual e federal.

Para o pesquisador, há esforços dispersos pelo país com o objetivo de celebrar o legado e resgatar a história dos ex-combatentes, mas ainda não há uma unidade.

A batalha pela preservação da história dos expedicionários avareenses não se dá em solo italiano, mas nem por isso deixa de ser menos dolorosa. E está apenas começando.(DositeForadepauta/PorFlávioMantovani)

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