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Solidão real e virtual II

Por Jornal A Bigorna 11/11/2017 12:19:00 1318
Solidão real e virtual II

Artigo

A solidão real é criativa e cheia de iluminações. Jesus esteve sozinho no deserto, perturbado ao final apenas pelo demônio. O Filho de Deus julgou essencial afastar-se do convívio social a fim de se preparar para sua missão trienal de pregação. O mesmo caminho seguiram dois outros grandes líderes: Buda e Maomé. Buda retirou-se sob uma figueira em busca da iluminação e o Profeta estava em uma caverna isolada quando foi visitado pelo arcanjo Gabriel. Jesus, Buda e Maomé julgaram que a solidão era uma forma de consciência, de comunicação consigo e de elevação da voz interior em detrimento do burburinho do mundo. Mesmo sendo pessoas de elevada estatura espiritual, decidiram que isolar-se era um cenário de aprendizado.

Aprendo em público, durante uma aula ou palestra. Porém, a palavra que ensina ou o exemplo que edifica devem cair no solo silencioso da minha consciência. Alguém abre a porta da consciência: meus passos serão solitários em direção a ela. O mestre/psicanalista/confessor pode indicar a bela chave, porém, a força do braço que empurra a porta é minha.

Desconfio de quem não consegue ficar sozinho. Tenho certeza de que há sabedoria em partilhar companhia e buscar o isolamento. Meu cérebro é um ioiô que vai e volta do mundo. Que momento mágico compartilhar uma boa refeição com quem se ama, conversando e percebendo outros mundos e consciências. Que epifania estar sentado aqui, nesta sala em Trancoso, observando falésias ao longe e escutando uma suave música de Brahms ao fundo. O ioiô seria bizarro se só desenrolasse ou se nunca saísse da sua situação inicial.

Quem eu sou derivou de dois momentos distintos e complementares. O primeiro é o esbarrar de fronteiras com os outros. Percebo meus valores ao contrapô-los com a alteridade humana. Os projetos de vida distintos aumentam minha consciência do que gosto ou não e questionam minhas escolhas. O outro é um desafio que me retira da minha centralidade arrogante e me obriga a negociar. Sem a presença alheia eu seria um deus ridículo, fraco e vaidoso, tendente a identificar meu mundo com a totalidade do universo. O outro me salva de mim mesmo.

O outro é o primeiro momento, meu inferno como diz Sartre, porém meu passaporte para fugir da penumbra ínfera. O segundo momento é sair da algaravia do mundo e permitir silêncio e isolamento.

Isolamento não é estar sem outra pessoa enviando selfies a cada 4 segundos. Isso seria voto de castidade ao lado de boneca inflável. O celular é a boneca inflável da solidão. Quem precisa muito de um placebo deve avaliar o real diagnóstico da doença.

Sozinho encaro o espelho da Esfinge: “Decifra-me ou te devoro”. O conhecimento de si é o maior inquietante da solidão. Vivi um retiro de 30 dias, os chamados Exercícios Espirituais de Santo Inácio, sem conversar com outra pessoa além do confessor. É uma experiência única. Boa no primeiro dia, inquietante ao final de uma semana e absolutamente transformadora ao final de um mês. Há vozes internas que só o silêncio prolongado consegue libertar. Recordo bem a sensação após quase trinta anos.

Lembrei-me de outra experiência, já homem maduro, isolado no interior do Butão em um hotel muito distante de tudo, quarto amplo, funcionários fluentes em línguas distintas daquelas nas quais eu poderia estabelecer comunicação. Retirado geográfica e linguisticamente, escrevi dezenas de páginas de um livro contemplando o sol nas escarpas do Himalaia. Era um Paraíso, porém quanto tempo mais eu suportaria naquele Éden?

Esse parece ser o desafio do jogo solidão-companhia. Casado ou namorando eu suspirei pelo momento do isolamento no qual nem sempre precisaria descrever meu dia de trabalho, já tomado de contatos humanos. Sem relações fixas, encarei noites imaginando como seria bom estar bebendo junto ou dormir de conchinha. Convivi com seres humanos capazes de enfrentar melhor o desafio de dividir espaço e vida com outra pessoa. Também conheci aptos a isolamentos profundos sem o trepidar da sanidade.

Música, vinho, livros, celular, televisão e outros instrumentos funcionam como poderosas bengalas a amparar o andar claudicante da solidão. Há um estágio mais maduro: conseguir abrir mão da maioria das bengalas e imergir em si, tranquilo, em casa ou em uma viagem. Sair para jantar sozinho e fotografar o prato e comunicar a todos a cada instante que está lá é sinal claro de amadorismo no campo do isolamento.

Há um conselho repetido, com variáveis, em muitos autores, de Nietzsche a Irvin Yalom: evite as pessoas que te retiram da solidão sem oferecer, de fato, companhia.

Deus tinha razão: não é bom que o homem esteja só. Quando não estou com pessoas, estou comigo, a companhia mais complexa que cada um pode usufruir na vida. Também sei que a solidão a dois, empurrando a relação como a ninar criança defunta, é a segregação mais angustiante que pode existir. Esteja com você, esteja com a pessoa que você ama, esteja com a família, esteja com livros e com música: não é bom que o homem esteja só.(DoEstado)

Por Leandro Karnal

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