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Todos nós, humanos, diminuímos de valor ético quando convivemos com genocídios ou violências

Por Jornal A Bigorna 04/02/2025 11:00:00 442
Todos nós, humanos, diminuímos de valor ético quando convivemos com genocídios ou violências

Temos uma memória documentada e transformada em narrativas sobre casos de violência. Um dos maiores genocídios da história, o massacre direto e indireto dos povos originários das Américas, é um exemplo. As denúncias já aparecem no século 16 com o bispo Las Casas. A violência está representada nos murais mexicanos de Diego Rivera, José Orozco, David Siqueiros e Federico Cantú. Da mesma forma, a barbárie da perseguição nazista a muitos grupos, notadamente judeus, já originou documentários, filmes, seminários, museus e arte. São violências intensas e trágicas. Quero, aqui, abordar massacres que, por vários motivos, são esquecidos.

Citei a violência da conquista ibérica sobre o Novo Mundo. Ela tem “balões de ensaio”. No século 15, ainda antes da chegada de Colombo às Antilhas, os espanhóis colonizaram as Ilhas Canárias. Acontece que o arquipélago era muito povoado por povos de possível origem no norte da África. O termo usado para eles é impróprio, guanche, pois se refere a apenas um dos grupos (o de Tenerife). Os cartagineses estiveram por ali na Antiguidade, mas foi no começo da Era Cristã que houve um fluxo maior para as ilhas. Na Baixa Idade Média, navegadores genoveses, normandos, portugueses e outros começaram a dar notícias das ilhas em uma “redescoberta europeia”. O avanço castelhano iniciado por Lanzarote provocou uma devastação entre os guanches, que existiam em dezenas de milhares. Violência direta de guerra, novas doenças e assimilação cultural, com cristianização forçada, completaram o quadro do quase total desaparecimento dos povos anteriores aos espanhóis. Vestígios surgem de túmulos e escavações arqueológicas. O genocídio de guanches, gomeros, bimbaches e de outros grupos das Canárias antecipa o que ocorreria nas Antilhas no fim do século 15 – a eliminação quase absoluta dos povos originais.

O termo genocídio é do século 20 e surge no contexto dos horrores da Segunda Guerra Mundial. O judeu, já citado, contém o modelo clássico: a tentativa violenta de eliminar todo um grupo humano. Assim, nem toda violência é, conceitualmente, um genocídio. Pois bem: citei o caso das Canárias. Podemos pensar se existiu um projeto de eliminação dos habitantes ou se os assassinatos eram parte de uma ocupação sem teorias e práticas genocidas. São sutilezas que pouco atingem quem foi assassinado e assemelham-se à nossa distinção entre homicídio doloso ou culposo (conceitos jurídicos favoráveis aos herdeiros, aos especialistas, todavia inúteis para as vítimas). Exemplo concreto? A violência de duas bombas atômicas sobre cidades japonesas, em 1945, é um ato de dentro da lógica da guerra ou um genocídio? O fato continua violento, as vítimas sofrem da mesma forma, mas nem toda violência é um genocídio. Para saber a diferença, basta imaginar uma ficção histórica: se os nazistas tivessem bombas atômicas, se o arquipélago do Japão fosse habitado exclusivamente por judeus, há a chance de que o massacre não estaria limitado a duas cidades. Porém, é um exemplo didático. A violência existe e comporta distinções. Não existe história a partir da palavra condicional “se”.

Mais próximo de genocídio do que o exemplo das Canárias é o caso das ações do Império Alemão na atual Namíbia entre 1904 e 1908. Os povos Herero e Nama (ou Namaquas) foram mortos, mas sobreviventes foram internados em campos de concentração. O discurso racista foi mais forte. Um projeto de “espaço vital” (conceito posterior) estava insinuado de forma velada. Apesar disso, a Alemanha levaria um século para reconhecer a violência. Não há uma filmografia conhecida do grande público sobre a morte de dezenas de milhares de pessoas da região. O fato de você identificar a violência contida de um Mengele ou de um Eichmann, mas nunca ter ouvido falar de Lothar von Trotha, mostra que existem memórias mais elaboradas. Morreram mais judeus na Segunda Guerra do que povos na Namíbia, mas o número é só parte da memória. Morreram mais chineses na Segunda Guerra do que judeus. Aliás, os filmes e livros sobre o Oriente são mais escassos entre nós.

O genocídio de judeus, ciganos, homossexuais, Testemunhas de Jeová e outros grupos nos campos de concentração nazistas é, no estrito termo, uma tentativa de eliminar um grupo. A violência gerou muito esforço de memória: isso é muito bom. Meu desejo é de que outras vítimas de massacres anteriores – povos africanos do Congo durante a ocupação belga, armênios durante a Grande Guerra, grupos da Namíbia, ucranianos contra a violência stalinista, circassianos contra a expansão russa e tantos outros – também reforcem nossa consciência para que tais horrores não se repitam. Toda vida importa. Todos nós, humanos, diminuímos de valor ético quando convivemos com genocídios ou violências de quaisquer tipos. A vida é o valor maior, sempre. Minha esperança é de que nunca um grupo morra duas vezes: no ato em si e, depois, na memória.

*Por Leandro Karnal

 

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