Por André Luís – Existia um homem que não pertencia a qualquer tipo de religião, mas que, todos os finais de semana estava no hospital de sua cidade, onde visitava todos os quartos, tentava dar um alento a todos que ali estavam enfermos.
Sua tarefa já durara dezenas de anos, e, com a idade já avançada, demorava um pouco mais em seus deslocamentos. Começara aos 40 anos as visitas, que batizou de missão.
Tudo começou quando ele usou drogas e tentou o suicídio. Por um breve momento viu transpassar-se do plano material para o espiritual. Contudo uma luz branca fortíssima o trouxe de volta. Parecia um sonho. Ele escutava uma voz que dizia-lhe: “ A cada tempo seu dia e sua agonia. A alma sempre sabe o que fazer para se curar, o desafio é silenciar a mente inquieta que, muitas vezes é tentada por espíritos opressores.”
Depois disso, ele recomeçou a vida. Deixou o álcool e as drogas que tiraram-lhe quase tudo da vida. Começou do nada, e sabia que sairia do nada para ser uma pessoa simples, porém importante aos olhos de Deus.
O tempo passou e, de repente, num sonho realizador e efêmero ele recebeu mensagens que nunca tivera ouvido em sua vida. A mesma aura branca lhe confortou. Tinha pouco o que comer, mas seguia sua vida a diante. Embora o salário fosse baixo, não abaixou a cabeça. Então ouviu uma voz ao longe: “É dos pequenos que Deus mais precisa”.
Assim, em vez de ir aos bares todos os sábados e encher a cara como era de costume, ele radicalmente mudou. Agora os sábados eram dedicados aos enfermos. Embora leigo, leu o Novo Testamento, e procurou aprofundar-se sempre em textos e palavras de conforto. Parecia que aquilo era tão fácil, que, em pouco tempo dominava palavras de fé e alegria.
Encontrava no hospital, idosos sem esperança, alguns, abandonados pelas famílias; mas ele permanecia horas conversando e tentando dar-lhes um alento a vida. Viu mulheres em fase terminal de câncer rir de suas piadas. Crianças que lhe abraçavam com gratidão, homens que lhe entregavam uma gota de lágrima pelas palavras amigas. Apesar de ser um local de grande sofrimento, ele nunca mais desistiu de sua missão.
O tempo passara e com ele a idade chegara, mas para sua satisfação, a sabedoria também chegara; embora tarde, nunca é demais e a cada passo se sentia realizado. Chorava juntos com os pacientes em fase terminal, mas sentia o orgulho de, sempre, no fim das conversas amistosas tirar de cada pessoa um sorriso de orgulho dizendo-lhes que sua passagem na Terra tivera sua parte de importância. Fazia-os sentirem-se importantes, porque aos olhos de Deus, todos eram importantes.
Ele sentia aos poucos a idade pesar-lhe muito, e num determinado dia, acordou enfermo. Morava sozinho. Era separado e nunca mais tinha visto a mulher que lhe abandonara. Seu único amor fora embora enquanto eele trabalhava. Sem recados, sem nada. Com muita dor chamou uma ambulância que foi buscá-lo, e, exatamente ficara num dos quartos que tanto fizera a alegria daqueles que agonizavam.
Sentiu um frio na barriga. Os pacientes que ele havia visitado fizeram uma festa quando ele chegou. Ele não aguentou e chorou. Pela primeira vez sentiu o que era o choro dos pacientes que ele tanto amara.
Foi diagnosticado com câncer de pâncreas. Os médicos quiseram levá-lo para um hospital fora da cidade, mas ele relutou e não permitiu. Foi ali que aprendeu o sentido da vida e era ali que iria terminar sua jornada.
No começo conseguia ainda andar e fazer as visitas aos demais quartos. Agora, com uma diferença, ele também estava de pijama do hospital.
Entretanto, aos poucos, o câncer tomou conta dos outros órgãos, e ele não conseguiu mais deixar o leito.
Para sua alegria, agora, quem o visitava eram os outros enfermos, àqueles mesmos que ele dava palavras de alento, agora, estavam ao seu lado, e faziam-lhe rir quando a dor era insuportável.
Numa noite um sonho assaltou-lhe e viu um homem que se aproximou e cochichou em seu ouvido: “Você venceu, pois viu que o importante era viver com aquilo que precisava, e viveu o hoje, sem se preocupar com o ontem ou o amanhã. Apenas se dedicou àquilo que mais lhe alegrava a alma. Agora você vai descansar – sua missão foi completada.”.
Acordou de manhã já sem forças e com a vista borrada. À sua frente à ex-mulher. Ela lhe estendeu a mão e pediu perdão. Ele disse que nunca havia guardado magoa dela, e que desejava que ela fosse muito feliz.
Os demais pacientes rodeavam a cama. Aos poucos ele notou que inúmeras pessoas começavam a adentrar ao quarto. Mesmo com a vista borrada ele reconheceu-os. Todos ali eram as pessoas que ele já havia visitado no hospital. Muitos estavam recuperados, outros ainda em recuperação. Num dado momento, lágrimas de alegria brotaram em seus olhos.
Aos poucos todos chegaram perto dele, e, assim, colocaram todas as mãos em cima da sua mão e oraram como ele fazia antigamente. Depois cada um deu um beijo em seu rosto, sorriam, agradeciam e outros choravam.
Ninguém arredou os pés dali. Como no conseguia falar, recebia afagos e carinhos dos antigos pacientes que tanto ele dera carinho.
Era noite e seu quadro piorara. Os médicos desligaram as máquinas, já não havia o que fazer.
De repente, ele fechou os olhos para sempre e viu um caminho de luz a sua frente.













