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A clareza absoluta sobre a condição humana é um sintoma insuportável

Por Jornal A Bigorna 11/01/2026 17:00:00 461
A clareza absoluta sobre a condição humana é um sintoma insuportável

Mais um ano se vai. E as pessoas sobre a Terra fazem planos. Não há dúvida de que convenções podem ser poderosas para um animal que pouco tem além delas. Leis, democracia, religiões e moral vagam sob um absoluto vazio de fundamento.

Sempre fui um apaixonado pela biologia. Isso me levou, entre outras razões, à faculdade de medicina. Sempre senti um halo de beleza e tragédia na teoria da evolução natural e em sua cegueira estrutural.

A consciência é um salto evolutivo infeliz. A clareza absoluta sobre a condição humana é um sintoma insuportável. Melhor seria se nunca tivéssemos atingido esse grau excessivo de consciência. Quem disse que a evolução natural sabe o que faz?

Do autor de quem vou falar aqui hoje, infelizmente, a oferta em português é precária. O mercado editorial brasileiro, cada vez mais, se divide, na sua imensa maioria, entre as casas ideológicas e as casas que só querem best-sellers de péssima qualidade, quando os dois traços não se misturam.

Trata-se de Peter Wessel Zapffe, norueguês, advogado não praticante, montanhista e filósofo, morto em 1990. "O Último Messias", um opúsculo, existe em português, apesar de eu nunca ter visto essa tradução. Sua obra máxima, que li em inglês, "On the Tragic", até onde sei, não foi vertida para o português.

Zapffe se inscreve naquela tradição rara em filosofia chamada por alguns de "filosofia lunar". A maior parte dos filósofos, de uma forma ou de outra, pertence à "filosofia solar". Ser lunar significa não crer que no final do dia, ou dos tempos, a ordem intrínseca, que tende ao bem, se impõe. Crer nessa ordem faz de você um ser solar.

Nesse sentido, lunares seriam autores como o romano Lucrécio, o francês Pascal, no século 17; Kierkegaard e Schopenhauer, no século 19; Unamuno, Freud, Jung, Camus, Cioran e Zapffe, no século 20; John Gray, no século 21. Antes que alguém salte com correções de orelha, Nietzsche é um demilunar, ou meio lunar.

Uma característica de Zapffe é partir da biologia —mais especificamente da teoria da evolução— para dizer que a consciência, e sua condição cognitiva excessiva, foi um salto evolutivo que deu ruim. Um peso para a frágil espécie humana que se arrasta pelo mundo criando escapes para este excesso de consciência.

Uma analogia conhecida que Zapffe faz é com o alce pré-histórico extinto que, com seus exuberantes e poderosos galhos na cabeça, acabou sucumbindo ao peso que eles significavam no dia a dia.

No caso da consciência, ela tem suas funções adaptadas à tragédia da sua condição excessiva. Zapffe enumera essas adaptações, ou fugas, como ancoragem —mecanismos rígidos de fuga, como religiões ou ideologias políticas—, isolamento —fuga do pensamento obcecado pelo insuportável da consciência—, distração —se ocupar, próximo do "divertissement" de Pascal— e sublimação —fazer da agonia arte, filosofia, literatura, próximo a Freud.

O insuportável citado acima pode ser compreendido pela contradição insolúvel entre nosso desejo infinito e a indiferença do universo —próxima à ideia de absurdo em Camus.

Duvidar de si e do mundo, antecipar o futuro, ver o vazio de fundo, a impermanência, a vulnerabilidade, a contingência, a morte, o silêncio e a escuridão dos espaços infinitos que apavoravam Pascal. Todas essas realidades são atributos da nossa percepção.

Em Zapffe, o mundo não é trágico, tampouco trágica é a estética ou a moral em si. Trágica é a evolução natural da espécie, em direção à sua consciência plena, ou à clareza absoluta da sua própria condição. Neste sentido, a lucidez que advém da clareza sobre nós mesmos —como pensava Camus— é um sintoma desse salto evolutivo infeliz, desse mau passo da natureza.

Como diz Zapffe, a natureza nos deu a consciência por meio de um erro cego e, com isso, nos expulsou dela, fazendo de nós uma espécie animal exilada do "paraíso" da ausência de consciência. Assim, o filósofo norueguês lia o mito da queda do paraíso. Como dizia Pessoa, "se o coração pensasse, parava de bater".

Se Agostinho fosse um trágico, diria que passamos a vida buscando o trágico do lado de fora de nós, quando ele está dentro de nós. Trágica é a consciência, essa condição insuportável quando tomada na sua nudez.

"Uma noite, nos tempos imemoriais, o homem despertou e viu a si mesmo", diz Zapffe, na abertura de "O Último Messias". "Sua mulher o mandou caçar", complementa o autor. Diante do animal indefeso, foi tomado de compaixão. Naquele dia, foi encontrado devorado por algum predador. Há muita beleza na tragédia humana. Há terror e há piedade.

 

*Por Luiz Felipe Pondé

 

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