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A dignidade dos mamíferos

Por Jornal A Bigorna 05/06/2022 10:00:00 734
A dignidade dos mamíferos

Vocês, queridas leitoras e estimados leitores, apresentam sangue quente, como este articulista. Quem registra ancestrais na Calábria ou Andaluzia costuma se orgulhar de ter o fluido vermelho alguns graus acima da média. Talvez seja apenas lenda. A frieza do corpo indica a morte. O calor nos aproxima da vida.

Nossos filhotes precisam ser amamentados. Em quantidades e locais distintos, temos pelos. Nosso coração é dividido em quatro cavidades. Se você se lembra do Ensino Fundamental, algumas dessas características nos classificam como mamíferos.

Somos também capazes de elaborar narrativas com nossos cérebros desenvolvidos. A chamada Revolução Cognitiva foi fundamental para a ascensão da nossa espécie no planeta. Criamos códigos morais como o interdito do assassinato de outro ser humano. Caim será muito imitado na história; todavia, segue amaldiçoado em público. Matar outro humano é tema de quase todo debate penal. E os animais? Aí depende...

A identidade com os mamíferos é muito grande para você e para mim. Há mais gente criando cachorros e gatos do que cobras ou lagartos. O carinho escasseia ainda mais se tratamos de insetos. Animais quentinhos nos parecem mais agradáveis do que os frios. Alguém que maltrate um cachorro será alvo de muita raiva e, em alguns lugares, até pode se tornar um caso de polícia.

A Espanha aprovou lei que proíbe venda, em lojas, de animais de estimação. Você conhece alguma norma jurídica ou condenação moral contra empresas que eliminam ratos?

 

Desratização é palavra consagrada e parece contar com certo apoio social. Um restaurante pode ser multado se não exterminar ratos e, ainda, deixar de apresentar o certificado das mortes. Ratos perto das mesas espantam clientes. Permitir cachorros entre os comensais é gesto simpático. O restaurante vira “pet friendly” e conquista a aprovação.

Ratos, cachorros e felinos são mamíferos de sangue quente, inteligentes, amamentam filhotes e estão presentes em muitas casas. Uns estão no tapete da sala e outros, escondidos em buracos. Ratos, por definição, não são “instagramáveis” (outro critério forte da defesa da vida ultimamente).

Há mamíferos pouco “fofos”. Morcegos são bons exemplos. Tirando o Batman, ninguém se identifica com os bichos voadores que podem conter vírus letais.

Descemos vários degraus e não identificamos inteligência ou utilidade nas repugnantes baratas. Há campanhas públicas contra os borrachudos e o mosquito da dengue. Nossa ética tem matizes, e nossa solidariedade é seletiva, sempre. O carrapato-estrela é um inimigo perigoso que transmite febre maculosa; a capivara que o carrega deve ser defendida a qualquer custo.

Jeremy Bentham falou dos direitos dos animais na transição do século 18 para 19. O belga Georges Heuse elaborou regras contemporâneas, acerca do respeito, na convivência com animais. O esforço resultou na Declaração Universal dos Direitos dos Animais (Duda).

Maltratar animais pode expandir-se pelo tecido social. A violência é, quase sempre, contagiosa. Uma colega militante dos direitos dos animais expôs a relação de modelos contemporâneos de granjas de frangos com o surgimento de campos de concentração. Galinhas concentradas e exploradas até a morte teriam ensinado a expertise para campos de extermínio de prisioneiros humanos?

Em 2012, em Cambridge, um grupo expressivo de cientistas lançou um documento que expunha: “O peso das evidências indica que os humanos não são os únicos a possuírem os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e as aves, e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem esses substratos neurológicos”.

Temos evidências científicas de que muitos animais sofrem e possuem elevada consciência disso. O relatório de Cambridge é sólido.

Nosso antropocentrismo cria maior sensibilidade com mamíferos que consideramos agradáveis. É uma ética por espelho. Amamos mais a golfinhos e baleias do que sardinhas ou atuns. Não defendemos a vida em si, todavia a vida sentida e com expressões similares a nossa. Quanto mais “humana” for a experiência da dor, maior nossa identidade com a vítima.

As bactérias são seres vivos fundamentais para a existência de toda a cadeia dos seres do planeta. Um detergente bactericida não causa protestos. O que os olhos não conseguem ver a ética não contempla. Nossa moral precisa de sangue quente para identificar, e sistema nervoso central, e capacidade de gritar ao morrer. Quem não grita tem menos chance de solidariedade. Isso vale também para genocídios humanos: quem grita mais leva a taça do sofrimento e das reparações. Quem morre em silêncio falece duas vezes, durante o massacre e na memória. Entre os humanos, há golfinhos e bactérias também.

Os animais nunca deveriam sofrer. Vivemos dias em que temos de dizer isso de humanos também. Apenas indiquei nossas ambiguidades, não para diminuir a proteção e a sensibilidade dada a alguns seres vivos, todavia para ampliar. O casal se separa e pode levar a juízo a posse do cachorro. Os ratos da casa dos divorciados? Eles (os camundongos) que lutem.

Usei o limite do absurdo para estimular o debate. Afinal, que argumento pró-gato excluiria o rato? Soberana, a barata nos contempla, sabendo que ela sobreviverá à radiação e nós, mamíferos, não. A esperança tem alguma ironia.

*Por Leandro Karnal

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