A fragilidade dos vínculos na contemporaneidade
Por Guilherme de Andrades
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman teorizou sobre o conceito de “liquidez”, que aponta a noção de fragilidade dos laços, considerados mercadológicos, possibilitando o surgimento e o desfazer instantaneamente, com a especificidade de curta duração.
No século XX, a Sociologia investigou a relação entre telespectador e celebridades, como por exemplo os apresentadores de televisão e rádio. A conclusão foi que havia o desenvolvimento de sentimentos, bem como vínculos e familiaridades com tais personas da mídia, apesar do óbvio inexistente contato ou interação real. Pode-se apontar, a partir disso, que não é impossível que os laços superficiais citados por Bauman sejam anteriores ao advento da Globalização, recorte temporal do sociólogo.
É correto afirmar que, com as redes sociais tal fenômeno foi alavancado de forma imensurável. Nas palavras do renomado cantor Gilberto Gil, na música Parabolicamará: “Antes o mundo era pequeno, porque Terra era grande, hoje mundo é muito grande, porque Terra é pequena” é ressaltado que o mundo contemporâneo criou a sensação de que as pessoas se aproximaram via internet, seja por um story ou live de Instagram, como se houvesse um acesso direto a vida de alguém, gerando a impressão de intimidade, de conhecer determinada celebridade. O traço de periculosidade é a ilusão de reciprocidade, sendo no real, uma relação pautada em aparências.
Comparando, o ser humano da atualidade é cercado amplamente por relações digitais e carente de vínculos profundos no mundo real. Na Filosofia, Aristóteles, escreveu que o homem, mesmo possuindo todos os bens, não escolheria viver sozinho, elencou ainda que a sincera amizade seria recíproca, amparada no cuidado e na convivência.
O conhecimento vem do real, da observação e do empírico, simbolizado na pintura “Escola de Atenas”, com o ato de Aristóteles de apontar para baixo, ou seja, o plano terreno ou concreto.
As relações digitais fazem parte do tempo atual, está intrínseca no ser, a problemática ocorre quando tais situações predominam em uma escala que o real é nulo ou mínimo. A compreensão do panorama demonstrado insere a ideia de não substituição do real em favor de Inteligência Artificial, robôs, famosos, em um contexto de excesso de unilateralidade absoluta.
Sobre Guilherme de Andrades
Professor/Historiador, especialista em História e Geografia do Brasil, bem como em Metodologias do Ensino. Possui certificação USP sobre Geopolítica Contemporânea.













