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A SOCIEDADE É UMA GRANDE FAMÍLIA FRACASSADA - Parte 1/3

Por Jornal A Bigorna 20/11/2019 09:10:00 8 mins read 1555
A SOCIEDADE É UMA GRANDE FAMÍLIA FRACASSADA - Parte 1/3

Artigo

 

Algum tempo atrás escutei de um renomado professor universitário a seguinte afirmação: 

– O mundo se tornou um lugar de pessoas hipócritas, superficiais e tristes. Só um milagre para resolver a loucura que vivemos. 

Concordo até a parte da maluquice e explicarei a razão, mas antes contarei uma rápida história: 

Três homens considerados santos haviam orado pela cura da visão de Mustafá e nada de resultado. Certo dia chamaram um ancião na aldeia vizinha para examinar o caso: – Esses olhos não carecem de nenhum prodígio espiritual e sim de um bom oftalmologista, disse o velho. 

O milagre já aconteceu no instante em que nascemos. Aquilo sim foi extraordinário e incognoscível. Não há um motivo sólido para tudo existir em vez de nada existir e apesar disso, aqui estamos... Aguardar outra providência divina para arrumar a zona psicossocial é perda de tempo. Basta uma compreensão direta e sem fantasias, que paulatinamente deixaremos de brincar de Deus - como na passagem entre a infância e a adolescência, em que os carrinhos e as bonecas perdem o encanto de maneira natural. Então deixarei qualquer argumentação metafísica de lado para tratar do assunto no âmbito antropológico. Será o remédio indigesto que o médico ofereceu ao cego, no entanto, enxergará a realidade a partir de uma nova perspectiva. 

A história humana e suas instituições (família, religião, Estado, casamento etc.) foram construídas em alicerces de mentira. Analise comigo. Os nossos ancestrais eram povos extrativistas e nômades, ou seja, pegavam o que consigam de um local (raízes, frutas, caça, pesca) e depois zarpavam, tipo a expressão “dar um de cachorro magro”. Comer e partir. Uma fase selvagem, primária, com o mínimo de acúmulos e ocupações. Séculos passaram e por meio da observação descobrimos que a mesma semente que jogamos fora após comer o fruto, quando enterrada surgia dela um broto. Aí descobrimos também a agricultura. 

Os homens ficaram sedentários. Já que não precisavam se deslocar, tinham mais horas de ócio e menos trabalho - o que resultou no desenvolvimento intelectual. A geração precedente não conseguia pensar muito, pois qualquer vacilo dentro da floresta poderia ser o fim. Aumentamos a percepção de mundo (originando as primeiras investigações filosóficas) tanto quanto a ganância. 

A ociosidade decorrente da lavoura angariou inúmeros embaraços (no sentido de achar uma solução) e um deles é a propriedade privada. Com as pessoas plantando e cultivando a terra, houve a necessidade de delimitar onde começa o MEU espaço e termina o SEU, engendrar critérios na atribuição do valor de cada produto para o escambo e o principal: como garantir que essa área estipulada como MINHA não vá para algum estranho depois que eu morrer.   Naquele período os grupos que permaneciam juntos não estavam ligados pelo conceito que temos hoje de família, esse conceito variava de cultura para cultura - inclusive a palavra PAI, no processo etimológico, apareceu depois do termo tio. A ideia de paternidade e tudo o que implica no âmbito da ética é um evento social e não natural - uma explicação razoável para a diferença na adaptação dos papéis. Observe que a fêmea (reduzo a terminologia unicamente a fins biológicos) além de vir dotada com o útero, é preparada para seu encargo durante toda a gestação: 3, 6, 9 meses (dependendo da espécie) que a natureza leva ajustando o corpo e a psiquê do animal para receber o filhote. São raríssimos os fatos de monogamia na selva e esses NÃO se estabeleceram como padrão na natureza, como sucedeu no caso dos sapientes. E aqui chegamos na grande jogada política.

 Preste atenção na astúcia maquiavélica dos nossos “tatatatataravôs”: vendo a possibilidade daquele pedacinho de terra ir para as mãos de terceiros no seu óbito, acharam um modo simples de garantir que, após a morte, ainda será (em algum nível) o proprietário... e sabe de que jeito? Assumindo uma criança como filho legítimo, que tenha o seu sangue. Compreende a loucura em que estamos enfiados? O sujeito não agiu pelo amor, mas impulsionado no interesse de se manter dono e “vivo” mesmo depois bater as botas. Um cão cruza e parte logo em seguida, a mãe que fica com a responsabilidade de cuidar dos cachorrinhos. Parece frio e cruel, no entanto, o que fizeram conosco é uma selvageria bem maior. Os bichos não pensam, não tiveram opção de escolha, agiram conforme seu DNA. Nós, ao contrário, articulamos o esquema inteiro. Não foi um fenômeno orgânico, aconteceu para fins socioeconômicos. 

A paternidade para os seres humanos é antinatural. Só que a merda não para aí. Como os avoengos teriam a certeza que o menino escolhido é seu filho de verdade? A mulher poderia ter tido relação com vários parceiros. Quem asseguraria sua dignidade? Logo, criaram o chamado “matrimônio” que transformava uma pessoa livre em objeto, posse e claro, estabeleceu uma regra importantíssima: ela tem que se casar virgem. Pronto. Agora sim concluímos o grupo perfeito, faltando apenas o Golden Retriever. 

Em latim o significado de família ou famulus é o grupo de escravos pertencentes ao mesmo patrão. É real. Nascemos servos de um sistema doente, romperam os laços de amor entre os semelhantes para os reduzir em normas consanguíneas. Não sou um fã de Karl Marx (pensador alemão do século XIX), porém admito a profundidade com que refletiu acerca das instituições. O que é a sociedade senão uma grande família, pô? A base está fundamentada na trapaça, na ganância, nos desejos particulares e nos privilégios, e o resultado é o que vivemos. Não tem como julgar ninguém, somos vítimas de um seguimento enraizado. Fomos forçados a aceitar um golpe matreiro que gerou indivíduos reprimidos, desequilibrados e EGOÍSTAS. O problema não é a falta de alimento no Planeta, os genocídios, o índice de desemprego, o preconceito e assim por diante... isso tudo é deveras superficial.  

A MISÉRIA É ACHAR QUE ESTAMOS SEPARADOS.  

*Ismael Tavernaro Filho é colunista do Jornal A Bigorna

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