CRÔNICA
INVERNO NA CIDADE
José Carlos Santos Peres
O tempo murchou o fruto,
amarelou a trova.
E na hora em que eu morria
Juntou os dois motivos numa cova
E fez uma elegia (Dois Motivos – Adélia Prado)
XXX
Esse vazio de inverno pelas ruas da cidade: luzes amarelas dos postes pontuando distâncias, pessoas encolhidas às paredes como sombras esquecidas; faróis em fuga, ciranda de folhas e gravetos.
Solidão de um homem só com seu saco de inservíveis carregando esquinas, tropeçando passos a caminho de algum lugar; de um lugar qualquer, que todos os lugares são pardos.
“Sertão: estes teus vazios...
O sertão está em toda parte. Sertão é sozinho. Sertão: é dentro da gente”.
Inverno na cidade como neblina, como lençol molhado estendido à sombra e ao vento que navalha. Ser tão, sem.
Essa coisa esquisita que me toca e não se explica; o amargor desse vinho barato num copo barato sobre toalha de plástico que venceu o tempo e revela antigas dobraduras feitas por alguém que já partiu.
Tudo é inverno. No corpo e na alma.
Meu Deus! O vazio desta cidade “domiciana” perdida num ponto escondido do universo no ano de dois mil e vinte seis.
De algum lugar Stevie Wonder canta I just called to say i love you e não sei por que me vem esse desejo tardio de tomar um trem para a Escandinávia.
Há um gato...
Um gato dormita sobre o muro do meu jardim.













