A Praia Brava, um dos cartões-postais da capital catarinense, foi palco de um crime que chocou a comunidade e reacendeu o debate sobre a impunidade de adolescentes envolvidos em atos de extrema violência: o espancamento até a morte do cão comunitário “Orelha”, animal querido e adotado informalmente por moradores há cerca de 10 anos.
“Orelha” era um vira-lata feliz, alimentado e cuidado coletivamente pela vizinhança. Ele vivia livre na praia, convivendo com outros animais de rua, e representava o símbolo de solidariedade e afeto que muitos moradores cultivam com os bichos sem lar. Na última semana, porém, o animal foi encontrado agonizando por uma moradora, com graves ferimentos na cabeça causados por pauladas. Apesar dos esforços, “Orelha” não resistiu.
A Polícia Civil de Santa Catarina agiu com rapidez. Nesta segunda-feira (26), foram cumpridos três mandados de busca e apreensão: dois em residências de adolescentes suspeitos de terem espancado o cão e um em endereço de um adulto acusado de ameaçar uma testemunha com arma de fogo. Computadores e celulares dos menores foram apreendidos para perícia. Três adultos também são investigados por coação de testemunhas e serão ouvidos nos próximos dias.
Dois outros adolescentes suspeitos de participação no crime estão nos Estados Unidos desde antes do episódio — viagem já programada, segundo a polícia — e devem retornar à capital catarinense na próxima semana. Os menores serão ouvidos pela Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI), com acompanhamento do Ministério Público de Santa Catarina. A investigação foi aberta em 16 de janeiro.
A Associação de Moradores da Praia Brava manifestou profunda consternação e cobrou “o correto esclarecimento dos fatos”. No sábado, moradores realizaram uma manifestação pacífica pedindo justiça para “Orelha” e punição exemplar aos responsáveis.
Casos como esse não podem ser tratados como “brincadeira de adolescente” ou “impulso juvenil”. Espancar um animal indefeso até a morte é um ato de crueldade deliberada, covarde e criminoso — e quem o comete, independentemente da idade, é criminoso sim. A legislação brasileira (Estatuto da Criança e do Adolescente) prevê medidas socioeducativas para menores infratores, incluindo internação na Fundação CASA em casos graves de atos infracionais equiparáveis a crimes hediondos ou com grande potencial de lesividade.
A comoção coletiva em torno da morte de “Orelha” revela uma sociedade que não tolera mais a banalização da violência — nem quando praticada por adolescentes. É preciso que a Justiça dê resposta proporcional à barbaridade cometida: os responsáveis devem responder por seus atos, e a impunidade não pode servir de estímulo para que outros jovens repitam esse tipo de atrocidade. “Orelha” merecia viver em paz. A comunidade merece justiça. E os adolescentes criminosos merecem, sim, as consequências de suas ações covardes.
*Por André Guazzelli













