AMOR PERDIDO NUM SEBO
José Carlos Santos Peres
Um dia, em pleno mar alto da paixão, Christian pensou em tocar o coração de Fátima. Como fazê-lo?
Naquele tempo – houve um verão - pedir nudez nem havia como, que a Polaroid queimaria o filme de quem ousasse ferir Usos & Costumes.
Só no escurinho do cine Santa Cruz, chupando drops de anis, poderia rolar alguma coisa a mais.
Christian era um cara romântico, amante de boa literatura... Como o cronista sabe? É que Christian deixou pegadas. Indeléveis!
Fátima era o avesso do avesso: não se deixava seduzir por uma barra de kopenhagen qualquer e, bem sei, agora, tinha uma visão mercantilista, nem um pouco romantizada do mundo.
E olha que naquela época de cashmere bouquet suspirava-se de amor, não só os caballeros de fina estampa como as moçoilas desavisadas, aquelas que liam Madame Bovary e se ardiam com os crimes do Padre Amaro.
Pois Christian, em pleno mar alto da paixão pensou em tocar o coração da amada e o fez na delicadeza de uma dedicatória, logo na primeira página da Antologia Poética de Cecília Meireles.
Não cometerei o desatino de reproduzir na íntegra o texto amoroso... Mas a escrita, ainda hoje, décadas depois, conserva vigor de uma louca paixão; traduz beleza, pureza e honestidade de sentimento.
Sim! Há um Te Amo na dedicatória.
E dele, do Te Amo, é possível rastrear um “trago dálias vermelhas no regaço/São os dedos do sol quando te abraço,/Cravados no teu peito como lanças!/E do meu corpo os leves arabescos/Vão-te envolvendo em círculos dantescos/Felinamente, em voluptuosas danças...//
Florbela Espanca, ao contrário de Cecília, quedaria ao coração de Fátima? Não meus amigos, que pelo meu Domínio dos Fatos a moçoila não era de se deixar ao encanto de palavras.
Quem negociaria num balcão cicatrizado pela lida diária um presente como aquele? Pois lá estava o exemplar num sebo de nossa cidade disposto à venda... Paguei vinte Reais por ele. Está inteiro, creio que a donzela não passou da dedicatória, mal se fez ao acaso daquelas páginas.
O livro para Fátima se perdeu; a dedicatória caiu ao vento, e embora a escrita tenha a pureza e honestidade de um sentimento, a data colocada ao lado do desenho de um coração sangrando, vazado por uma flecha (espécie de “emoji” da época) sinaliza, como numa fria lápide, a inutilidade de uma paixão.













