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Palanque do Zé

Contos do Zé #11 - Encontros com a Morte

Por Jornal A Bigorna 11/03/2020 10:30:00 1524
Contos do Zé #11 - Encontros com a Morte

Contos do Zé

Júlio estava com 27 anos e ainda morava com os pais. Diferentemente do que acontecia com os seus amigos, ele queria mudar essa situação de dependência econômica e queria trabalhar com o que quer que fosse.

E esse "o que quer que fosse" incluía a vaga de auxiliar de necrópsia, emprego que estava sendo oferecido pela Prefeitura de Vila Verde.

Passar no concurso foi tranquilo, pois ninguém queria a vaga. Existia uma lenda na cidade, de que coisas sobrenaturais aconteciam no Necrotério Municipal.

 

  • Júlio, você não pode trabalhar no Necrotério - bradou Geni, sua mãe.

-- --- Três meses depois --- --

Júlio já estava se habituando na nova função e continuava plenamente convicto de que toda aquela baboseira sobre o Necrotério Municipal ser assombrado não passava de lenda urbana.

Aos amigos, parentes e conhecidos, todos curiosos com o seu trabalho e com a questão da lenda, sempre dizia:

 

  • Eu temo mesmo são os vivos. Por isso sempre carrego esse canivete em meu kit de sobrevivência!

 

No trabalho, suas atividades incluíam levar os corpos para a geladeira, catalogá-los e, quando lhe fosse solicitado pelo Médico Legista Dr. Marcos, prepará-los para a autópsia.

A única inconveniência de seu trabalho era o fato de que ficava sozinho boa parte da noite, vez que os trabalhos aconteciam durante o dia. Era um pouco solitário, mas também propiciava que pudesse ler muito ou ver TV, se essa fosse sua vontade. Não podia dormir, primeiro porque considerava antiético e segundo porque deveria estar atento para o caso de algum bandido querer dar um destino diverso para algum dos corpos existentes no local.

O Necrotério de Vila Verde era grande pois, apesar de a cidade ser de porte médio, atendia toda a região, a qual abrangia 19 municípios circunvizinhos. Assim, suas 50 geladeiras estavam quase sempre lotadas.

Certa noite, no auge do inverno, Júlio decidiu pedir uma pizza, algo que fazia todas as sextas-feiras. Decidiu criar a regra porque estava engordando de tanto comer lanches no lugar do jantar.

Abriu a porta para receber a encomenda, pagou o motoqueiro e foi direto para a sua sala, que ficava ao lado da que continha as geladeiras.

Sem deixar a pizza cair, sacou seu canivete e bradou:

 

  • Quem é você? Como entrou aqui?
  • Sou a Morte, não está me reconhecendo só porque estou sem o capuz e a foice?
  • Que brincadeira mais sem graça! Saia da minha cadeira e dessa propriedade. Senão chamo a Polícia!
  • Porque tudo isso? Toda essa agressividade? Guarde esse canivetinho Júlio! Contra mim ele não serve de nada! Aliás, receio dizer que ele não serve pra muita coisa nem contra os vivos!
  • Vou chamar a Polícia!
  • Vai passar vergonha e ser tido como louco, pois somente você pode me ver. Os Tiras não vão gostar de serem chamados à toa… Vou evitar todo esse dissabor e dessa vez vou para outro lugar. Mas volto qualquer dia desses, pra gente conversar sobre a história desses Presuntos que você guarda aqui do lado!

 

E, foi assim, como num passe de mágicas, que a Morte simplesmente desapareceu bem diante dos olhos de Júlio.

 

-- --- 17 dias depois --- --

 

Logo após o acontecimento, Júlio percorreu todo o quintal do Necrotério Municipal e entrou em todas as salas buscando locais onde o invasor poderia ter entrado. E não localizou nem mesmo uma brecha, quanto menos uma violação ou arrombamento.

Comendo sua pizza, porque dizer que a saboreou seria forçar a amizade, decidiu que não contaria nada para ninguém. Nem mesmo para sua mãe.

Com o passar dos dias, começou a duvidar do que tinha visto. Talvez fosse coisa da sua cabeça, afinal, a privação de sono pode ser alucinógena, como havia lido na Internet uma vez…

Foi quando, no 17º dia após o seu primeiro encontro com a Morte, a viu no reflexo do espelho do banheiro de sua casa.

 

  • Estou passando apenas para que você não se esqueça de mim e passe a acreditar que a nossa primeira conversa não passou de um sonho!
  • O que você quer de mim?
  • Apenas conversar!

 

E, de novo, a Morte apenas sumiu do espelho de Júlio, deixando-o perturbado.

Sua mãe já havia notado que ele estava ficando estranho - paranóico seria a melhor definição - e começou a se preocupar, mas nada disse.

Naquela mesma noite, quando foi trabalhar, Júlio estava perturbado. Não conseguia desenvolver suas atividades laborais e só se concentrava em respirar vagarosamente para não entrar em pânico. O problema é que ele já estava sentindo os sintomas clássicos do pânico: Dormência e formigamento nas mãos, taquicardia, sudorese, tremores labiais, dificuldade para respirar, náusea, tontura e a nítida impressão de que a sua garganta estava se fechando.

Mas como tudo o que está ruim pode piorar, começou a ouvir ruídos vindos da sala ao lado. Era a Morte empurrando a maca usada para o transporte dos corpos dos carros funerários até as geladeiras.

Conforme Júlio pedia para que aquilo acabasse, mais a Morte o afrontava, e agora ela batia as portas das geladeiras, jogava os ossos de uma ossada que estava sendo investigada contra a parede e derrubava tudo o que estava sobre as mesas.

 

-- --- 36 meses depois --- --

Aquela foi a última noite de trabalho de Júlio no Necrotério Municipal. Quando amanheceu, ele foi encontrado desmaiado na cozinha, pelo Dr. Marcos, que havia chegado para trabalhar.

Foi levado para o hospital, estabilizado e diagnosticado com psicose, motivo pelo qual precisou ser internado numa Clínica Psiquiátrica.

Lá, o médico responsável por tratar de Júlio explicou para Dona Geni, que a psicose é um transtorno mental que faz com que o doente veja as coisas de maneira diversa do que são na realidade, o que o leva a ter dificuldade em entender o que é real e o que não é.

 

  • Por isso, frequentemente Júlio está alucinando e alega ouvir, ver e sentir coisas que não são reais - disse o Médico.
  • E ele vai poder sair daqui, Dr? - Arguiu Geni.
  • Lamentavelmente não, pois tudo isso que lhe contei causa sofrimento tamanho no seu filho, que o convívio social fica insustentável.
  • Meu Deus!
  • Mas a senhora pode visitá-lo sempre que quiser.
  • Isso não é suficiente! Quero meu filho de volta!
  • Lamento informar que Júlio nunca mais será o mesmo. Não há cura para a doença que o acomete, e no estágio em que ela se manifestou nele, pouco podemos fazer.

 

-- --- O fim --- --

 

Foi numa agradável tarde de verão em Vila Verde, quando Júlio estava sentado em seu banco predileto nos jardins do Manicômio, que a Morte lhe apareceu pela última vez.

 

  • Olá! Como vai você?
  • O que quer de mim? Que eu morra?
  • Claro que não! Afinal, você já está morto. Só que seu espírito ainda habita esse corpo que um dia já pertenceu ao afável e sempre prestativo Júlio, único filho de Geni!
  • E o que quer de mim?
  • Apenas conversar, como disse em nosso primeiro encontro!

 

 

***

Esse conto é inteiramente ficcional. Os sintomas e diagnósticos aqui contidos, muito embora sejam baseados em fatos reais, são imprecisos ou modificados para propiciar maior dramaticidade. Se precisar procure um médico, pois somente um profissional será capaz de ajudar.

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