Crônica
É O CU DA COBRA
José Carlos Santos Peres
Ao perceber queda de pressão na torneira do pátio da Sabesp o encarregado convocou o operador da Estação de Tratamento às explicações.
- Fui ligar o disjuntor no postinho “por mode” alimentar a bomba de recalque e no que abri o quadro de energia adivinha quem estava lá?
- Quem?
- Ela!
- Estava lá?
- Estava!
- Quem estava lá?
- A cobra!
- Vixe!
- Refeito da surpresa, até porque não é todo dia que dou de cara com uma jibóia...
- A não ser aos domingos, né?
- Por que aos domingos?
- Dia de sogra comparecer para macarronada.
- Brinca não.... Brinca não que o caso é sério.
- O que você fez para espantar a sogra? Digo a cobra?
- Inicialmente tentei com um bambu. Mas quanto mais eu a cutucava, mais ela se encolhia e se encaixava na fiação. Então, com medo de furar a sogrinha, digo a cobrinha, abortei a estratégia.
- E?
- Apelei para a única arma que havia no local. No caso, um extintor de incêndio!
- Esmagou a cabeça da cobra?
- Descarreguei todo o pó químico para ver se ela desocupava o beco do recinto.
- Desocupou?
- Demorou.... Assim que o pó se acomodou me aproximei um pouco mais. E aí nem te conto o que aconteceu.
- Conta!
- Nem te conto...
- Conta!
- Congeladinha!
- Morta?
- Não! Quando cheguei para o corpo de delito foi que a cobra fumou.
- Pegou fogo?
- Força de expressão, né?
- O que aconteceu então?
- Pensei ter visto um zoinho no meio daquela névoa toda.
- O olho da cobra... Até parece filme do Van Damme.
- Não era olho não, chefe.
- Ah, não?
- Led... Sabe aquela luzinha no painel?
- Um led?
- Do contator.
- Aceso?
- Cezinho, cezinho.
- Sei... Um Led?
- Aí então deu no que deu, nè?
- Deu no que deu?
- Deu!
- Deu no que deu o quê?
- Deu que quando fui remover o cadáver para ligar o disjuntor o cadáver não estava morto.
- Um cadáver vivo?!
- Vivíssimo! No que me aproximei é que a cobra da situação fumou.
- Que no caso ...
- Girou a cabecinha espalhando pó químico para todos os lados. Sacudiu: vupt!
- Mas nume diga...
- Adivinha o que mais, chefe?
- Desembucha, porra! O que aconteceu de mais surpreendente?
- A filha da puta me mostrou a língua. Tipo assim: Sleeeep! Sleeeep...
- Slep?
- Sleeeep!
- Foi o que disse: slep!
- Sleeeep, chefe... Slep com apenas uma vogal é coisa de sapo. A linguinha avança e volta rapidinho. Sabe cumé? Já para cobra é sleeeep porque a língua tremelica, antes de voltar.
- Peloamor, hein... O que aconteceu com a cobra?
- Eu nem queria contar, porque o senhor vai achar que estou faltando com a verdade.
- Pra quem acreditou no tremelica... Manda!
- É que ao deixar a Caixa de Força, antes de tomar o rumo da captação, a morfética olhou pra mim, balançou a bundinha e...
- E?
- Nem te conto.
- Conta, porra!
- Cuspiu...
- Cuspiu?
- Cuspiu!
- Quem cuspiu?
- A cobra, uai!
- Você está me dizendo que a Jiboia cuspiu?
- Cubinhos de pó químico, chefe. Cubinhos.
- Cubi...?
- De pó químico...
- De pó químico?
- Foram ficando aqueles cubinhos de gelo espalhados pelo caminho, até o banhado, onde ela se esconde. Coisinha mais fofa do mundo a cobrinha da captação da Sabesp em Paranapanema.













