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Estamos emburrecendo?

Por Jornal A Bigorna 04/05/2025 08:00:00 1730
Estamos emburrecendo?

Constatação histórica: todas as gerações imaginaram que os jovens são menos inteligentes, esforçam-se menos e seriam avessos a sacrifícios quando comparados à trajetória dos mais velhos. Sim: existe um sentimento difuso e insistente de decadência que recai, quase sempre, nos ombros dos adolescentes da vez. Na nossa memória de adultos: “Eu estudava muito, respeitava todos e tinha muita responsabilidade...”. É uma arenga repetitiva e antiga. Será verdadeira?

Na agonia da República Romana (há mais de dois mil anos), Cícero atacou o declínio da cultura entre jovens. Ninguém mais estuda muito e a língua clássica dos antigos foi destruída, fala o filósofo Boécio nos alvores da Idade Média. Ao compor uma ficção com referências históricas n‘O Nome da Rosa, Umberto Eco enumera argumentos sobre o sentimento de decadência no século 14. “Catão frequenta os lupanares”, querendo dizer que o mundo está invertido nos seus valores.

O apogeu estava lá atrás, pensavam os portugueses do 17, referindo-se ao período das grandes navegações. O Século de Ouro passou, asseguraram espanhóis depois de Cervantes e de Velázquez. Éramos a maior potência da Terra na época da Rainha Vitória, lamuriavam-se ingleses do século 20. Aparentemente, a espécie humana está em declínio desde que a ousada Lucy olhou a savana na África. Você já ouviu seu pai celebrar as décadas passadas como um Paraíso Terreal? Os homens de ferro teriam dado lugar aos jovens de cristal. No meu tempo...

Tanto a ideia de progresso linear como a de declínio constante são invenções culturais que contaminam a psique de algumas épocas. Quando meu mundo não faz mais sentido, imagino que deva ser o fim do mundo, pois o que eu compreendia está se acabando. Saber que tudo seguirá (e bem) depois de mim fere meu narciso. Haverá vida, festas e risos quando meu nome estiver esquecido. Isso é, pelo menos inconscientemente, um desafio para algumas pessoas.

Sim, temos chance concreta de ser a primeira geração que pode testemunhar o fim da vida humana no planeta, seja por armas nucleares, químicas, biológicas, colapso ambiental ou a nova inteligência artificial. Essa é uma novidade real. Porém, nada disso parece ter participação direta de jovens.

Para aumentar a precisão da resposta à pergunta título da crônica, consultei meu amigo psiquiatra, Dr Ricardo Krause, especialista em crianças e adolescentes. Ele fez reflexões sobre a escala Binet-Simon e o debate em torno do QI. Depois, David Wechsler matizou o conceito na Universidade de Columbia abordando medidas além do puro desempenho intelectual. Surge uma escala para inteligência de adultos (WAIS), de crianças (WISC) e uma pré-escolar e primária (WPPIS). Ampliou-se a concepção de inteligência, integrando capacidades de adaptação e não apenas de lógica formal ou matemática. Dali teríamos também a pesquisa de Howard Gardner sobre as múltiplas inteligências. O chamado “efeito Flynn” analisava décadas de testes de QI e demonstrava que cada geração respondia melhor aos testes. Logo, gerações mais inteligentes, algo que pode estar relacionado ao avanço da nutrição, vacinas e até mais escolarização. Aparentemente, em meio a debates enormes sobre as medidas e testes, não se verifica um crescimento constante. Tomando esta medida, a resposta seria: sim, estamos emburrecendo, ao menos na capacidade de responder a testes. Todavia, a resposta é complexa: estamos debatendo ainda critérios de inteligência e validade de métodos para aferi-la.

Meu lugar de fala muito limitado: vou comparar alunos de 1985 e de 2025. Afirmo que eles continuam inteligentes, porém, diferentes. O foco piorou sensivelmente nos últimos anos. A inteligência atual é mais imagética do que era há 40 anos. Há muita dificuldade em ler uma longa oração subordinada e muita facilidade em apreender algo visual. A busca de dados provoca rapidez genial nos dedos dos jovens. A Biblioteca de Alexandria se curva aos sistemas do Google.

Sim, o uso excessivo de telas pode diminuir a motricidade fina e a comunicação intermediada por expressões faciais. Isso leva países pioneiros em computadores nas escolas a retrocederem. Escrever à mão, com papel físico, lápis e borracha, está voltando à moda. O excesso de informações pode criar vício em dopamina e o vídeo rápido será visto de forma superficial e ultrapassado o interesse em segundos. Isso existe, todavia, não parece ser um golpe na inteligência, apenas modulações importantes na capacidade de concentração.

Contratadores de mão de obra jovem sofrem com a falta de fidelidade da geração nascida perto do fim do século passado ou no começo deste. Morrer em um emprego não é mais projeto de vida da maioria. Estabilidade está fora de moda. Isso significa menos ou mais inteligência?

A velocidade das transformações está tornando obsoletas muitas instituições e tradições. É difícil acompanhar tudo e a inteligência artificial é uma revolução cognitiva.

Tenho sempre esperança em coisas que nos retirem por um instante do mundo concreto e nos remetam para exercícios de imaginação. Pergunta incômoda: você é mais inteligente do que seus filhos e netos?

 

*Por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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