O início de um novo ano costuma trazer listas de metas, promessas de mudança e expectativas de um “recomeço perfeito”. Para muitas famílias atípicas, porém, esse período também desperta sentimentos profundos: comparações, cobranças silenciosas e o desejo, ainda que inconsciente, de que tudo seja diferente — ou mais fácil.
Aceitar o autismo não é um ato instantâneo. É um processo. Um caminho que a família percorre, muitas vezes entre o luto do filho idealizado e o amor real pelo filho que existe. No começo, a negação pode surgir como defesa, o medo se mistura à culpa e a esperança fica confusa. Tudo isso faz parte. Aceitação não significa desistir, mas compreender que o desenvolvimento acontece de outra forma, em outro ritmo, com outras conquistas.
Para a própria pessoa autista, a aceitação também é fundamental. Quando ela cresce em um ambiente que tenta “consertá-la”, aprende a se envergonhar de quem é. Quando cresce em um ambiente que acolhe, respeita e adapta, aprende que pode se desenvolver sem precisar apagar sua identidade. Ser autista não é um defeito de caráter, não é falta de esforço, nem sinônimo de incapacidade. É uma condição neurológica que exige compreensão, suporte e respeito.
No início do ano, talvez a melhor meta não seja “normalizar” a criança, mas humanizar o olhar. Substituir a pergunta “quando ele vai ser como os outros?” por “como posso ajudá-lo a ser a melhor versão de si mesmo?”. Pequenos avanços merecem ser celebrados. Silêncios precisam ser respeitados. Comportamentos comunicam necessidades, não desobediência.
Aceitar o autismo não significa abandonar terapias, intervenções ou sonhos. Significa alinhar expectativas à realidade, sem perder a esperança. Significa entender que cada conquista tem valor, mesmo que não seja a que o mundo espera. E, acima de tudo, significa oferecer um lar onde a criança — e o adulto autista — possa existir sem medo de rejeição.
Que neste início de ano, a aceitação seja um compromisso diário. Com menos comparação e mais empatia. Menos cobrança e mais presença. Porque quando a família aceita, o caminho fica mais leve. E quando o amor é o ponto de partida, o desenvolvimento acontece com mais dignidade e menos dor.
Sobre a colunista:
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, Transtorno do Espectro Autista (TEA), Educação Especial e Inclusiva, com Capacitação em TEA pela Universidade de Harvard. É mãe atípica, Estudante de Fonoaudiologia, Mestranda em Distúrbios da Fala, Linguagem e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
Atenção: Esta é uma coluna informativa, baseada em observações gerais e conhecimento público. Em caso de dúvidas ou necessidades específicas, procure sempre um profissional qualificado.













