JUNHO
José Carlos Santos Peres
“A água que gotejava das telhas fazia um buraco na areia do quintal. Soava: plás plás e depois outra vez plás, na metade de uma folha de louro que dava voltas e revoltas metida na fenda dos tijolos” (PEDRO PÁRAMO, Juan Rulfo”.
XXX
Junho chega de mansinho com seu jeito de não chegar: tantinho de sol em alguns momentos do dia, restos de sombras-molhadas que se descalçam ao vento pedindo silêncio de oratório, só para poder estar.
Quantos junhos já se foram pelas cordilheiras dos meus olhos? De quantos ainda preciso para a sala de jantar de inúteis esperas?
Cá está mais um, como quem chega de cachecol e deixa as botas na soleira, como se deixasse recados de tantos caminhos visitados.
Daqui a pouco junho me sai – como tantos outros - para que eu possa recolher todos esses vazios abandonados nas portas entreabertas do peito.
A cidade conversa com sua gente: há uma pressa parada nos movimentos entrecortados de braços e acenos. Todos se conhecem dessas mesmas esquinas e praças.
Quantos não se fizeram nas quadras esportivas, no cinema que se perdeu no tempo, pela praça central como pássaros soltos na algaravia de encontros...
E desencontros.
E todos esses descaminhos de alguma maneira se bifurcam que a cidade, por mais que se alargue, ainda é uma concha, uma grande quermesse que perdeu a festa, mas não o sentido.
Estamos em junho!
A estação nos chega trazendo sementes de novas plantações, e dando lógica à religiosidade com seus santos festeiros e sonhos renovados, que no dia 12 os amantes se reencontram para selar a magia do amor revigorando-o como aquela flor metida na fenda dos tijolos.













