Crônica
LOUVADO SEJA!
José Carlos Santos Peres
Tão pobrinha a rua, com balaústres lascados dando suporte a um velho cipó São João carregado de flores queimadas de vermelho.
Descalça e descuidada, até a capela de Santo Expedito, onde um velho padre, sentado na solidão do alpendre percorre cansadas páginas de uma Bíblia, com seus olhos baços, qualquer Salmo que mostre aos seus o caminho da esperança:
- Cantai louvores ao Senhor, vós que sois seus santos, e louvai o seu santo nome. Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida. O choro pode durar uma noite; pela manhã, porém, vem o cântico de júbilo,
Eles se achegam. São tão poucos... Antes faltava banco; agora a fé rareia entre essa gente marcada pela fome e seca.
Descalços, doce severidade no olhar que ainda brilha quando o velho sacerdote suspende cálice e hóstia e demora no ato da transubstanciação na santa “magia” do Sacramento.
- Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo vinho que recebemos de vossa bondade, fruto da videira e do trabalho do homem, que agora vos apresentamos e para nós vai tornar vinho da salvação!
A ruazinha ainda mais deserta ao final do ofício religioso; pequenos pássaros buscam árvores enegrecidas, corruíras se embrenham saltitantes pelo desvão de pedras enquanto a sombra da noite aos poucos encobre a capela com seu manto de mistérios e abandono.
Aquela gente cabisbaixa dispersa-se, arrastando, cada qual, o fardo da semana trabalhada, carregando, de alguma maneira, o alívio na alma com as palavras do santo padre.
Já é noite quando o sacerdote desliga as poucas lâmpadas pendentes amareladas pelos séculos, deixando entreaberta a porta para o caso de algum viandante perdido por aquelas paragens, e na certeza de aquele raio luminoso que a lua projeta e se infiltra pelo altar é o sinal que Alguém lá do alto o acolheu.
Benze-se, afivela melhor as sandálias já desgastadas por aquelas pedras, apruma o cordão da batina e se vê encoberto de vez pela escuridão da noite enquanto repete: para sempre Seja Louvado.













