Há dois modelos (ao menos) de consumo. Vamos ao primeiro. O avatar deste padrão inicial é uma querida amiga francesa. Compra pouco e apenas coisas de muita qualidade. Seu casaco de inverno é sofisticado e custou uma quantia expressiva. O material é excelente. Foi adquirido há muitos anos e sobrevive bem a repetidos invernos. A roupa é mantida com zelo, arejada, escovada, de quando em vez lavada a seco. Gasta muito uma vez e amortiza por uso ao longo de anos. É um padrão: muita qualidade e pouca quantidade.
Há outro modelo que enfatiza a variedade como eixo. Os adeptos do segundo tipo frequentam lojas mais simples, pagam menos, gostam de mostrar cores distintas e modelos abundantes. Gastam pouco em muitos objetos. Talvez, somando todos os casaquinhos do segundo tipo, tenhamos o mesmo custo do casaco caro e único do primeiro tipo. Quatro peças mais ordinárias em oposição a uma superior: há certa equivalência financeira. A diferença é de expectativa.
Existiu uma geração que reaproveitava mais do que a atual. Os adultos com diploma de datilografia não trabalhavam com a ideia de um mundo sempre novo. Mesmo que tivessem recursos, trocavam pouco seus carros, consertavam mais, guardavam mais. Todos temos uma mãe ou tia que acumulavam fitas e papéis de presentes. Poucos jovens têm essa atitude hoje. Desapareceram sapateiros. Reforma de roupas usadas está em declínio. O século 21 não conserta e nem conserva: de calçados a relações amorosas, preferimos o inédito à tentativa de remendo no antigo. Obsolescência nos domina. É estratégia de mercado e atitude de vida.
Volto ao Velho Mundo. As casas europeias normais são pequenas. Não há como guardar muita coisa. Alguns invocam as privações das guerras como uma forma de educação para uma maior austeridade. Os estoicos indicavam que não se deve desejar espaços maiores, todavia possuir menos coisas. Não deveríamos nos angustiar em ganhar muito mais, porém gastar menos. Você poderia ter um ataque de ceticismo ao pensar que alguns estoicos eram muito ricos, como Sêneca ou o imperador Marco Aurélio. Para quem tem muito, o projeto de austeridade tem outra coloração. Porém, “fica a dica”: pode ser o caso de diminuir consumo e não de aumentar renda. O conceito dinamarquês de “hygge” (aconchego e conforto) implica casas que acolhem, não enormes ou luxuosas. “Hygge” implica um pouco de beleza no ambiente (uma peça com design, por exemplo), almofadas, velas, chá e amigos: é parte do segredo de felicidade do povo de lá. Lustres enormes de cristal e peças douradas coruscantes remetem a outro padrão, mais Dubai e menos Copenhague. Insisto: há um mundo de felicidade em Dubai e outro no escandinavo, você sempre deve descobrir qual o que lhe seduz mais e se casa de forma mais harmônica com a sua alma. Já que o texto é sobre padrões de consumo, há corpos e almas para todos os tipos. O Sol, generoso e amplo, banha epidermes em Balneário Camboriú e Trancoso. Independentemente da sua posição sobre o conceito de um luxo silencioso e mais discreto (Quiet Luxury), recomenda-se protetor solar.
Talvez a chave não esteja exatamente no mais ou no menos, mas de parar de tomar o olhar alheio como métrica. Viajei muito, muito mesmo, com grupos de brasileiros ao exterior. Havia as pessoas que transportavam a casa nas malas. Queriam um modelo por noite e a bagagem se multiplicava como em uma longa cáfila pelo deserto. Talvez, hipótese especulativa, pensavam o que os outros pensariam se repetissem sempre a mesma roupa. Outros, poucos, viajavam com o mínimo, fazendo um jogo permanente de itens escuros, por exemplo, sujando menos e parecendo elegantes com quase nenhuma troca. Estes últimos seriam pessoas despojadas e indiferentes ao brilho dos primeiros? Nem sempre, pois se orgulhavam muito do seu despojamento e ainda ironizavam os donos de baús volumosos. Podemos ostentar pelo excesso e pela falta. Nos dois casos, excesso e falta podem ser usados como reafirmação de padrão de consumo diante do mundo. Tanto a burca como o biquíni podem dialogar com o olhar masculino. Trazer muito ou pouco, revelar demais ou quase nada é uma estratégia de dialogar. Você precisa escolher.
Em resumo, seu padrão de consumo pode ser um sofisticado casaco de lã pura comprado na Avenue Montaigne ou uma peça feliz da Renner. Você pode romantizar, invocar brasões ou até argumentos estoicos. O mundo continuará se irritando com sua catequese do caro-sofisticado-atemporal ou da “blusinha” comum. Um dia, no futuro, com seu corpo já depositado em alguma urna, encontraremos suas peças em um divertido brechó, revendidas a mil reais ou 4,90 na bacia das almas... Consuma dentro dos seus limites, vista-se com um estilo pessoal, seja feliz com suas escolhas, ignore o mundo, pense um pouco no consumo excessivo produtor de lixo e seja feliz. Tal como suas comidas e roupas, somos todos seres com data de vencimento agendada e inevitável. Tenha esperança em você. Viva o momento aqui e agora em chita ou crepe de seda. Raramente os corpos gelados e duros reclamam das mortalhas.
Opinião por Leandro Karnal
É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros













