Mater et Magistra
A manhã nasceu fria, sob o véu de uma garoa fina que insistia em cair. Logo após o café, Ana e Antônio saíram do orfanato em silêncio, esquivando-se do olhar dos funcionários. O peito apertava de saudade; as lembranças dos Dias das Mães passados entre risadas e brincadeiras faziam as lágrimas rolarem, aquecendo o rosto gélido pela brisa.
Haviam perdido a mãe há apenas dois meses em um trágico acidente. Sem parentes próximos, o destino os levou ao orfanato — um lugar onde o tempo parecia parar e o silêncio era preenchido pela esperança contida de tantas crianças que aguardavam um novo lar.
De mãos dadas, um sendo o porto seguro do outro, caminharam sob a chuva até o cemitério. No caminho, a pequena Ana, de 8 anos, parou diante de uma floricultura. Com os olhos brilhando em súplica, pediu ao dono um único botão de rosa, explicando com doçura que não tinha dinheiro, pois vivia no abrigo. Seu irmão, de 10 anos, aguardava do lado de fora, protegendo-a com o olhar.
O florista, um homem robusto de bigodes fartos, abriu um sorriso bondoso. Ele desapareceu nos fundos da loja e retornou, não com um botão, mas com um magnífico buquê de rosas.
— Sua mãe estará sempre cuidando de você, pequena grande menina — disse ele, com a voz embargada.
Comovidos, os irmãos correram para levar o presente. No cemitério, após uma busca cuidadosa, encontraram o jazigo. Com os paninhos que trouxeram, limparam cada canto da última morada de sua amada mãe. Colocaram as flores sobre o mármore e, abraçados, ajoelharam-se em oração. Naquele instante, uma luz suave pareceu envolver suas cabeças, como uma benção. Sentiram um calor intenso e inexplicável, um abraço de alma que lhes devolveu a paz.
Retornaram antes do almoço, mantendo o segredo guardado no coração.
A segunda-feira amanheceu diferente, o ar era caloroso e o sol brilhava esplêndido. Enquanto se preparavam para a escola, uma monitora pediu que esperassem. O medo gelou o estômago; pensaram que a fuga da véspera fora descoberta. Foram levados à sala da diretora, onde encontraram um casal de meia-idade que, ao vê-los, sorriu com uma ternura imediata.
— Ana e Antônio — começou a diretora — este casal é formado por dois professores que buscam, há tempos, a alegria de serem pais. Eles viram vocês no cemitério ontem e, tocados pelo amor que demonstraram, seguiram-nos até aqui para solicitar a adoção de ambos.
A confusão e o receio só se dissiparam quando a diretora revelou:
— Eles eram grandes amigos de sua mãe, mas não sabiam de sua partida.
O destino os uniu novamente.
O casal aproximou-se e os envolveu em um abraço longo e protetor. Naquele toque, as crianças sentiram a mesma vibração de carinho que a mãe lhes transmitia. O luto, enfim, dava lugar à esperança.
A adoção foi concluída com a urgência que o amor exige. Ao deixarem o orfanato, o primeiro pedido dos filhos foi visitar o cemitério uma última vez antes da nova vida. Ao chegarem lá, encontraram uma placa de madeira nobre, cuidadosamente esculpida, que o casal havia encomendado para honrar a memória da amiga. Nela, brilhava a inscrição:
“Mater et Magistra” — Mãe e Mestra.
Agora, eles sabiam: ela não apenas os havia ensinado a amar, mas continuava a guiá-los, de onde estivesse.
*Por André Guazzelli













