CRÔNICA
O SALTO E O CHEVETTE
José Carlos Santos Peres
Do alto, a linha do horizonte costurando distâncias... Donde a terra batida do campinho onde a molecada da rua da Esquerda desafiava a da Direita?
Mais ao longe, a escola que o tirava da cama para aprender com quantos pares de cromossomos somos.
Demora o olhar tateando a praça de pombos e pedintes, onde hoje se troca bicicleta sem guidão por relógio sem ponteiros.
Antes, meninas de pernas insinuadas insinuavam-se ao cair da noite com retretas, queijadinhas e algodão-doce. Na corneta rachada do coreto a agulha saltava sulcos do vinil “assassinando o trio Los Panchos”.
Daquele alto ele questiona o vazio...
Alguém lá embaixo estaria a dizer: tem chifre na parada. É o que ele pensa vendo o amontoado se fortalecer com velhos carregando guarda-chuvas, vendedores de bilhetes, cães e gatos pingados.
A moça do Salão de Beleza abre o leque da angústia à colega saída da chapinha:
- Ficamos, numa madrugada de Wanderley Cardoso no toca-fitas de um Chevette, atrás do hangar, lá na Emapa.
O tempo passa, como passam as nuvens, quase tocadas pelos seus braços bêbados.
A roda vai se revezando: alguns retornam da padaria da esquina com mais uma Skol:
- Ainda não?
O representante de indústria farmacêutica estou indo que tenho consultórios para fazer.
Então ele desenha a senha na cara do celular: a modernidade destes tempos; sem pressa, consulta as últimas postagens; libera um coração com um laço à vizinha peituda, tira uma selfie, em perfil, com a caixa d`agua do prédio se agigantando ao fundo.
Até que, enfim, caminha, com passos firmes, até a beiradinha da laje. Vasculha a imensidão mais uma vez, ajustando o celular no bolso traseiro da calça.
Uma sirene anuncia urgência...
Ele levanta os braços como a abraçar os presentes, antes de alcançar a escadinha de acesso ao local e iniciar a descida, com todo cuidado, sabendo que uma queda daquela altura poderia colocar fim à sua vida.
No chão, entre aplausos e vaias, decreta: a vida é fake, meus amigos.
No lusco-fusco do dia o Chevette tubarão amarelo pega de primeira; a velha fita cassete rola no roadstar:
- eu nunca pensei/ Quem eu tanto amei/Fosse assim me desprezar/ Mas o mundo é grande/Vou não sei prá onde/Alguém há de me amar...
De repente, o vazio, o silêncio...
Resta a moça do hangar na calçada a observar uma andorinha picotando de azul o espaço até alcançar o alto daquela caixa de onde é possível alcançar a linha do horizonte costurando distâncias.













