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O Palhaço

O Palhaço

Por Jornal A Bigorna 22/01/2018 20:36:00 3956
O Palhaço

Episódio 1

A Polícia não tinha pistas do assassino há quase um ano. Embora tudo tivesse sido disponibilizado, desde as últimas tecnologias, nada e ninguém, apesar de todo o esforço fora detido ou sequer interrogado.

Era Natal.

O delegado do setor de Homicídios estava fechando sua sala. Tinha alguns presentes à mão e sua esposa e filha com a qual havia tido um forte desentendimento no dia anterior o aguardavam em casa. Sua filha, pensava, aturdidamente sem parar; precisava pedir-lhe desculpas. Era apenas uma jovem, e, como ele já fora um dia jovem, sabia que os erros eram naturais naquela idade.

Estava cansado demais.

Brundel estava tão esgotado que não via a hora daquele ano acabar. Pressões, imprensa, familiares, enfim tudo e todos em cima dele por causa da morte misteriosa de uma moça de 24 anos.

Àquele crime havia consumido suas energias. A vítima, degolada teve todas as partes do corpo picadas e enviadas à família, justamente na noite de Natal. Já os olhos foram enviados numa caixa de correio ao próprio delegado.

O crime, depois teve as manchetes em todos os jornais, principalmente quando um policial inescrupuloso ‘vazou’ o áudio da voz sinistra, que ficou conhecido como “O Palhaço”.

Àquilo o afligia.

Um ano.

Com seus quase 30 anos como policial, nunca vira nada igual. Tamanha selvageria e torpeza.

Uma crueldade sem limites. Além dos detalhes sórdidos que o assassino infligira à vítima.

Pobre moça pensou enquanto descia os degraus rumo à liberdade.

Fechou a porta principal e seu celular tocou.

Olhou.

Era da central. Nada melhor do que estragar uma noite natalina recebendo uma ligação como aquela.

Com certa dificuldade atendeu.

Em poucos minutos desligou. As sacolas caíram. Sua mão ficou trêmula e a cabeça não parava de girar.

Estacado tentou ligar para o chefe dos investigadores, no entanto, o celular estava desligado.

Num frigir de tempo, outro toque.

Uma voz.

Uma mensagem. A voz era de um homem, mas estava desfigurada, graças a aparelhos que alteravam a voz.

Uma risada sinistra de palhaço que ouvira um ano atrás.

Era ele.

Depois de um interlúdio de um ano, ele voltara a ser mais um episódio em sua já desgastada vida.

A mensagem foi breve e sinistra.

Um local... Um nome... Um pedido de socorro e mais nada. Mas a voz soara-lhe familiar; uma voz doce, meiga que só ele conhecia de um jeito especial.

Saiu correndo e entrou numa das viaturas. Ligou a sirene e saiu como um louco percorrendo as ruas de São Paulo que já estavam vazias.

Pouco tempo depois parava defronte a um depósito abandonado. Arma em punho teve pouco trabalho para arrombar a porta.

O depósito era grande e estava completamente vazio. Com a ajuda de uma lanterna começou a vasculhar.

Naquele momento sentiu medo.

Começaria tudo de novo?

Àquilo o deixou nervoso e perturbado. Foi até o fundo como a voz misteriosa havia lhe passado as informações.

A porta, logo à frente, estava semiaberta.

Devagar a abriu. O escuro só foi quebrado pela luz da lanterna que colocara junto à pistola em mãos.

Lentamente caminhou.

À frente uma banheira branca. Passo a passo se aproximou.

Olhou fixamente.

Seus olhos quase saltaram.

Não podia ser. Não aquilo; não ela. Sentiu-se mal e cambaleou voltando para trás.

Tudo...

Tudo menos aquilo.

Respirou fundo e voltou a olhar. Ao lado como sempre, uma câmera filmava tudo. Fora assim da outra vez. Ele filmava tudo e deixava o horror para quem quisesse assistir.

Desta vez, o impacto foi maior e começou a chorar.

Tudo começou a rodar.

Rodar e rodar e rodar.

O celular tocava convulsivamente.

Atendeu e ouviu uma risada espalhafatosa e depois uma voz lhe desejando: ‘Feliz Natal’.

O barracão abandonado ficava ao lado de um desfiladeiro alto e profundamente sinistro. A vista da cidade era densa, devido à altura. Naquele momento não via nada. Somente luzes das casas e apartamentos.

Lágrimas escorriam de seu rosto. Por alguns segundos pensou que não haveriam outras investigações. Nada mais. Chegara a seu limite. O corpo lá dentro era a perfeita combinação de um final.

Não haveria mais Natal para ele. Olhou o céu semiestrelado e sentiu que a vida lhe pregava peças. O celular voltou a tocar. Olhou. Era sua esposa. Desligou e jogou-o penhasco abaixo.

Por alguns minutos a lembrança de toda sua vida veio à tona.

Sentiu a vontade de gritar adeus.

Não gritou.

Novamente olhou para baixo. Soltou a arma que ruiu quicando ao chão. Ato contínuo soltou seu corpo penhasco abaixo.

Agora estava livre e voava caindo sob o nada até chegar a lugar algum.

Por André Guazzelli

 

 

 

 

 

 

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