O movimento armado paulista, para ser compreendido, é imperioso interpretar suas respectivas raízes sociohistóricas.
Ainda no Brasil Império, sob o poderio do imperador D.Pedro II, SP e o interior do estado viveram o boom econômico do ciclo do café, no século 19, produto relevante na economia brasileira, que gerou lucros astronômicos à região paulista, sobretudo. A marcha da cafeicultura expandiu-se pelo Oeste Paulista e o Vale do Paraíba, integrando o Sudeste, o que muito justifica o fato de ser o espaço mais bem sucedido economicamente no Brasil do século XXI.
Com o advento da República em 1889, SP era a região mais rica da nação brasileira, e logo, a partir deste aspecto, tornou-se dominante na política republicana, consolidação via arranjo denominado “Política do Café com Leite”: SP era o maior produtor de café; MG era a região de maior produção de leite: formou-se assim a égide do revezamento presidencial: ora um mineiro, ora um paulista assumiram o cargo de maior proeminência da política brasileira, a presidência. É nítido que as elites cafeicultoras paulistas eram favoráveis ao esquema, visto que seria garantido o desenvolvimento estadual via aplicação dos excedentes do lucro na industrialização de SP. Ademais, as fraudes eleitorais e o voto aberto contribuíam amplamente para facilitar o acordo, visto a demasiada exclusão popular do processo.
A estabilidade das elites mineiras e paulistas perdurou de 1894 a 1930, ano que ocorreu a entrada de Getúlio Vargas no poder, um gaúcho, que quebrou a aliança dominante até aquele período.
O movimento de 1932 deve ser interpretado como uma reação das elites que não aceitavam a possibilidade de perder sua hegemonia, o poder abocanhado e seu comando na gerência do Brasil. Bem como a imposição de interventores escolhidos pelo presidente para chefiar SP desagradaram a classe dominante.
A difusão de cartazes propagandistas do movimento foi intensa, mobilizando a população em nome de um esforço de guerra. Uma comparação com Delacroix é possível, a icônica Marianne como representante da liberdade da França, apareceu portando a bandeira paulista.
O estopim do conflito foi a morte dos jovens Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, origem do MMDC que acelerou o aspecto militar. Envolveu as forças paulistas e as forças oficiais de Vargas. Acrescenta-se que a ênfase era a elaboração de uma nova constituição para o país, numa tentativa de reduzir os poderes de Getúlio. Meses de combate armado, os paulistas foram derrotados militarmente, visto que não obtiveram apoio de outras regiões. Entretanto, moralmente, foram vitoriosos, via a promulgação da Constituição de 1934, o que nada adiantou, devido ao Golpe de 1937.
Sobre Guilherme de Andrades:
Professor/Historiador, com 5 especializações, abarcando História e Geografia do Brasil, bem como Metodologias do Ensino e Docência do Ensino Superior. Possui inúmeras certificações USP sobre Ciências Humanas.













