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Detetive Tango

Tango – “Paixão em Cinzas”

Por Jornal A Bigorna 11/01/2026 19:00:00 114
Tango – “Paixão em Cinzas”

 

A porta do meu escritório rangia como um gemido antigo. Era terça-feira, e o calor de setembro entrava pela janela suja, misturando-se ao cheiro de mofo e café requentado. A vida como detetive particular em uma cidade que não dorme, mas cochila embriagada, era um eterno desfile de traições mesquinhas e segredos baratos. Até que ela entrou.

Leonilda.

Era como se alguém tivesse acendido um holofote no meio da minha escuridão. Vestia vermelho, um vestido que parecia desenhado por um anjo caído. Seus cabelos negros caíam sobre os ombros como uma cascata de ébano, e seus olhos… seus olhos tinham a profundidade de um poço noturno, prometendo segredos e perigos que eu, Afrânio Tango, estava disposto a explorar.

“Preciso de seus serviços, senhor Tango”, disse a voz, suave como seda, mas com um fio de aço por dentro. “É sobre um homem que me fez muito mal. Um parasita. Um cafetão.”

O nome dela era Leonilda Bastos. O nome do alvo: Valério “O Valha”, um sujeito que operava nos cortiços da zona leste, explorando garotas e travestis. Ela contou uma história triste, de ameaças, extorsão e humilhação. Disse que era dançarina, que Valério a prendera em dívidas impossíveis. Queria que ele sumisse. Para sempre. Pagou adiantado, um envelope gordo de notas que cheiravam a perfume caro.

Eu deveria ter desconfiado. O dinheiro era frio, mas minhas mãos estavam quentes, assim como meu sangue. Havia anos que não sentia aquilo. Ela me olhava por sobre a fumaça do cigarro, cruzava as longas pernas, e eu, o detetive cínico, virava um menino diante de uma deusa. Marquei encontros para “atualizações”, que se transformaram em conversas no bar, depois em jantares. Ela era inteligente, sarcástica, misteriosa. Eu me afoguei naquele olhar. Achava que finalmente encontrara algo puro em meio à podridão do meu mundo.

Durante uma semana, segui Valério. Ele era um brutamontes com cara de bulldog, sempre acompanhado de dois capangas. Morava num sobrado decadente no Brás. A rotina era previsível: bares de má fama, bordéis baratos, casas de apostas. Planejei a execução para uma noite chuvosa, quando ele voltaria a pé da taberna. Era tudo limpo, calculado. Eu, que havia matado um homem por engano na cadeia, agora faria isso de propósito. Por ela. Por justiça. Por paixão.

A noite chegou, pesada e úmida. A “Catarina”, minha  velha, 32, estava fria contra minha cintura. Fiquei no beco escuro, ouvindo o gotejar da chuva nos telhados de zinco. Então, o vi. Valério, cambaleante, sozinho.

Era a hora.

Segui-o até a porta de um casarão antigo, não seu endereço usual. Ele tirou a chave. Iria entrar. Era meu momento. Avancei em silêncio, a arma engatilhada. Mas antes que eu pudesse agir, a porta se abriu de dentro.

A luz do corredor iluminou o rosto de uma mulher.

Meu sangue parou.

“Valério, amor, você está encharcado!”, disse a voz, doce e familiar.

Era mamãe.

Minha mãe. De roupão, com seus cachos grisalhos desarrumados, puxando o cafetão para dentro com afeto genuíno.

“Vem, meu bem, fiz um canja quente para você.”

Mamãe nunca fez canja para mim.....estava abalado.

Valério, o monstro, o explorador, sorriu um sorriso cansado e entrou. Antes que a porta se fechasse, ouvi minha mãe dizer: “Amanhã a gente conversa sobre aquele investimento, não se preocupa com o Afrânio, ele some e aparece…”

A porta bateu.

Fiquei paralisado na chuva, a água escorrendo pelo meu rosto, misturando-se a um suor gelado. O mundo desmoronou. Meu alvo, o cafetão que eu devia exterminar para salvar minha dama, era o namorado de minha mãe. A mulher que eu amava, a cliente que me olhava com olhos de paixão, havia me mandado matar o companheiro da minha própria mãe.

Voltei ao escritório em estado de choque. A chuva tinha lavado as ruas, mas não a sujeira dentro de mim. Sentado à minha mesa, olhei fixamente para o arquivo de Leonilda. A foto que ela me dera, aquela imagem de beleza perfeita. Comecei a examinar os documentos de investigação básica que havia feito, mas que minha paixão cega me impedira de analisar direito. Uma antiga certidão de um clube noturno, um nome riscado: “Leonardo Bastos”. Um relatório hospitalar antigo, uma menção a terapia hormonal. Pedaços de um quebra-cabeça que eu me recusara a montar.

E então, como um soco no estômago, tudo se encaixou. O pomo de Adão disfarçado pelo colar, as mãos grandes demais para a luva, a história sempre vaga sobre o passado. Leonilda não era apenas uma dançarina fugindo de um cafetão.

Leonilda era Leonardo.

Ela era uma travesti. E Valério não era apenas seu ex-cafetão. Provavelmente, era o ex de muitos. Talvez tivesse magoado Leonardo profundamente, transformando ódio em uma vingança elaborada. E eu, o detetive durão, caí como um patinho. Paguei para ser o instrumento cego de uma vingança pessoal, e quase matei o homem que fazia minha mãe feliz.

Uma onda de nojo, raiva e humilhação me tomou. Não nojo dela, não exatamente, mas nojo de mim. Da minha estupidez. Peguei o arquivo, o envelope com o dinheiro manchado, e joguei tudo no velho cesto de lixo de metal. Acendi um fósforo e vi o fogo consumir Leonilda, Leonardo, a paixão e a missão. As chamas lamberam a foto, transformando aquele sorriso perfeito em cinzas negras.

Não havia cliente. Não havia caso. Só havia um idiota de meia-idade com o coração feito em pedaços e as mãos sujas de uma intenção horrível.

Precisava beber. Esquecer.

Babar até morrer!

O Bar da Gertrudes estava enfumaçado e cheio como sempre. Gertrudes, a dona, com seus braços tatuados e coração de ouro, acenou de longe. No canto, no nosso bar, estava Herculano. Meu único amigo de verdade. Ex-carcereiro, agora segurança, era um rochedo de simplicidade e lealdade.

“Tango! Parece que viu um fantasma”, ele grunhiu, empurrando uma caneca de chopp para mim.

Desabei no banco. A música sertaneja de fundo parecia uma zombaria. Peguei a caneca e bebi metade de um só gole. O líquido amargo não lavou o gosto de cinzas da minha boca.

“Herculano”, falei, a voz rouca, olhando para os fundos da caneca. “Já se sentiu pelado com a mão no bolso?”

Ele franziu a testa, seus ombros largos encolhendo um pouco. “Como assim, parceiro?”

“Pelado. Exposto. Feito um completo idiota. Você toma uma decisão achando que está no controle, que está vestindo a roupa certa, fazendo a coisa certa… e do nada, a porra da realidade te arranca tudo. Fica nu. E aí, no desespero, você enfia a mão no bolso, tentando achar algo, qualquer coisa, um pedaço de pano, uma moeda, uma identidade… mas o bolso tá vazio. Você tá completamente nu e não tem onde se esconder.”

Herculano ficou em silêncio por um momento, tomando um gole lento. “É sobre aquele caso novo? A morena dos olhos de cigana?”

Soltei uma risada amarga. “Morena. É. Algo assim.” Não tinha coragem de contar. A vergonha era grande demais. A quase tragédia, maior ainda. “Acontece que… o mundo não é preto no branco,my friend. Às vezes, o mocinho é vilão, a vítima é carrasco, e o herói… o herói é só um palhaço de meia-tigela que quase fez uma merda das grandes.”

Ele me olhou com seus olhos pequenos e entendidos. Não fez mais perguntas. Apenas levantou a caneca. “Então brindemos, Tango. Brindemos aos palhaços. São os únicos que ainda tentam fazer a gente rir nesse circo desgraçado.”

Batemos as canecas. O barulho foi abafado pelo burburinho do bar. Eu ia encher a cara até o amanhecer, até que a imagem daquela foto queimada, da porta se fechando na casa da minha mãe, e dos olhos profundos de Leonilda se dissolvessem em um borrão alcoólico.

E sabia, no fundo, que quando a ressaca chegasse no dia seguinte, eu ainda estaria pelado. Com a mão no bolso vazio. E a "Catarina", pesada e silenciosa, me lembrando o quanto a linha entre detetive e criminoso é fina, e como eu quase a atravessei por um amor que nunca existiu.

Na manhã seguinte, mamãe me bateu de sinta; ela é boa, mas , às vezes, é cruel.

Tango, Afrânio Tango, detetive particular.

 

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