No autismo, muitos comportamentos repetitivos são vistos como algo “errado” que precisa parar. Mas a ciência mostra que nem tudo que se repete é igual, e nem tudo é patológico. Entender a diferença entre tics, estereotipias e autorregulação muda completamente a forma como olhamos para a criança.
Os tics são movimentos ou sons rápidos, involuntários e difíceis de controlar. Costumam surgir de repente e aumentam em momentos de ansiedade, cansaço ou excitação. Exemplos: piscar os olhos, mexer o pescoço, pigarrear ou emitir sons. Geralmente não têm uma função de prazer ou organização interna: eles simplesmente acontecem.
As estereotipias são movimentos repetitivos, rítmicos e previsíveis, muito comuns no autismo. Podem incluir balançar o corpo, agitar as mãos, girar objetos ou pular. Diferente dos tics, elas costumam ter função: ajudam a organizar o sistema sensorial, aliviar tensões, acalmar ou expressar emoções. Não são defeitos, mas estratégias do cérebro para lidar com o mundo.
A autorregulação é a capacidade de ajustar o estado emocional e fisiológico. Muitas estereotipias são, na verdade, comportamentos de autorregulação. É o corpo tentando se equilibrar diante dos estímulos internos e externos.
O problema é quando tudo é tratado como algo que precisa ser eliminado. Suprimir sem compreender pode aumentar a ansiedade e retirar da criança um recurso importante de organização.
Isso não significa que nada deva ser observado: tics muito intensos ou estereotipias que causem dor, risco ou grande prejuízo funcional precisam de avaliação profissional. Mas a intervenção não é “apagar” o comportamento, e sim entender sua função e oferecer alternativas seguras.
A pergunta central não é:
“Como faço isso parar?”,
mas sim:
“O que esse comportamento está tentando regular ou comunicar?”
Quando mudamos essa lente, saímos do controle e entramos no cuidado.
No autismo, o corpo fala.
Cabe a nós aprender a escutar.
Sobre a colunista:
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, TEA, Educação Especial e Inclusiva, com capacitação em TEA pela Universidade de Harvard. É mãe atípica, estudante de Fonoaudiologia e mestranda em Distúrbios da Fala, Linguagem e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
Atenção: Esta é uma coluna informativa. Em caso de dúvidas específicas, procure sempre um profissional qualificado.













