TUDO PASSA
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José Carlos Santos Peres
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Soube de minha obrigação recolher os pertences do período natalino no dia destinado a tal tarefa quando tudo já demonstrava certo enfado e cansaço.
Acomodei, já com algum traço nostálgico tocando minh`alma, todos os personagens do presépio numa pequena caixa de madeira que, a exemplo de todos os últimos natais, ocupa um nicho na despensa.
Lá onde se amontoam aqueles achados e guardados que bem sabemos conservam histórias perdidas e só existem porque precisamos dessas muletas para apaziguarem nossas angústias e desesperanças.
(Às vezes, quando algo estranho e distante nos chega como uma sonata de há muito, buscamos algum porto, que pode ser um álbum de velhas fotografias, algum cheiro de perfume vencido, uma réstia de dor camuflada em algumas páginas sem cor...).
Então percebi, no intercurso da operação (havia uma pequena árvore com seus arranjos, Papais Noéis, Guirlanda...) o quanto o tempo é marcado por momentos, em nossas vidas.
Houve, pois, um momento de euforia no dia da armação do cenário: pequena reunião familiar com as crianças se ocupando dos objetos... A felicidade no ar, eletrificada. Era possível tocá-la, senti-la.
Pois agora, neste Dia dos Reis, os que passaram por mim durante a operação de desmonte, apenas passaram por mim.
Houve um Natal...
Como um flash de uma antiga máquina fotográfica aquele instante congelou-se... Daqui a pouco, que o calendário é implacável, será tão somente uma lembrança tardia, esfumaçada, esquecida no fundo de nossas memórias.
Um rio, chamado tempo, passou pela minha sala no 6 de janeiro levando consigo um instante. O espaço voltou com a sua arrumação antiga para acomodar a velha e confortável rotina.
Até que um dia...
Num distante dia alguém haverá de perguntar, revirando aquela caixa de madeira, o porquê daquele da foto esfumaçada que se havia numa alegria infantil fazendo os pisca-piscas saltarem...
De algum lugar, quem sabe, este alguém repetirá o gesto com um cordão de estrelas. E será Natal. De novo...













