Carnaval não é só festa. Para muitas famílias atípicas, é sobrevivência.
Enquanto muita gente associa essa época a alegria, música e folia, para muitas crianças autistas o Carnaval pode significar excesso: barulho, aglomeração, calor, cheiros fortes, mudança de rotina e estímulos demais ao mesmo tempo. E quando o corpo e o cérebro entram em sobrecarga, o comportamento vira a linguagem do sofrimento.
O problema é que nem sempre o mundo entende isso.
Muitas famílias já ouviram frases como “ele é mimado”, “é falta de limites”, “se acostuma”, “deixa chorar”. Mas não se trata de manha. Para a criança autista, certos ambientes podem ser literalmente dolorosos. O som alto não é apenas incômodo. A multidão não é apenas desconfortável. Pode ser uma sensação de ameaça real.
Por isso, a primeira pergunta que uma família precisa se fazer nessa época não é “vamos ou não vamos?”. É: o que essa criança precisa para ficar bem?
Algumas crianças conseguem participar, sim — desde que haja preparo. Outras não conseguem e tudo bem. Inclusão não é forçar presença. Inclusão é garantir dignidade.
Se a criança vai a um bloco ou evento, algumas atitudes fazem diferença: planejar horários mais vazios, evitar locais fechados, escolher ambientes com menos som, levar protetor auricular, manter água e lanches, combinar sinais de pausa, ter um lugar para sair rapidamente, e principalmente respeitar o limite antes da crise acontecer.
E se a criança não vai, isso não é fracasso. É cuidado. Há muitas formas de viver o Carnaval com leveza: brincadeiras em casa, fantasias confortáveis, músicas baixas, momentos curtos e controlados, ou simplesmente um feriado de descanso para o corpo e para a mente.
O maior desafio dessa época não é o Carnaval. É o julgamento.
A mãe atípica já carrega uma rotina pesada. Ela não precisa carregar também a culpa por não “aproveitar” como os outros. Cada família tem uma realidade. Cada criança tem um nível de suporte. E cada limite respeitado é um ato de amor.
Carnaval passa.
Mas a memória de um dia respeitoso, seguro e acolhedor… essa fica.
E para uma criança autista, sentir-se protegida vale mais do que qualquer festa.
Sobre a colunista:
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, TEA, Educação Especial e Inclusiva, com capacitação em TEA pela Universidade de Harvard e Síndrome de Tourette pela The American Academy of Pediatrics (AAP). É mãe atípica, estudante de Fonoaudiologia e mestranda em Distúrbios da Fala, Linguagem e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
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Atenção: Esta é uma coluna informativa. Em caso de dúvidas específicas, procure sempre um profissional qualificado.













