O triunfo da ignorância
Por Guilherme de Andrades
A Grécia antiga é considerada o berço da civilização ocidental, no território grego surgiu a Filosofia, a partir do questionamento às bases dominantes do conhecimento na época, ou seja, buscou-se ultrapassar explicações religiosas e místicas, partindo para o racionalismo, o uso da razão para entender o social, o natural e o humano e o divino, via argumentação dialética denominada Maiêutica, cujo criador foi Sócrates. O filósofo possuía como pressuposto basilar o ato de admitir que nada se saberia como a única certeza, inserindo a dúvida como primordial. Séculos separam a atualidade dos primórdios dos estudos filosóficos.
O Brasil atual é atingido por uma onda de fanatismo político, definido como um aderir cegamente, sem questionar, irracionalmente, em outros termos, é avesso a atividade filosófica do pensar racional, é instituída uma verdade que assume um tom de absoluta. Ademais, integra-se a intolerância, ato de não aceitar a discordância, aspecto básico de qualquer democracia. Consolida-se o eixo do bem e do mal, a violência “contra o inimigo”: a base para a instauração de tiranias, com apoios dos tiranetes. Immanuel Kant apontou no século XVIII, o fanatismo como uma fixação não pautada na lógica e nas evidências disponíveis, é o exato oposto do pensamento crítico.
Ressalta-se que na educação paulista, uma pauta vem sendo implantada com sucesso, a redução no número de aulas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Disciplinas essenciais na formação humanística do aluno, na conscientização do futuro cidadão e eleitor, o que acaba por reproduzir as desigualdades sociais. Torna-se cada vez mais contundente a tese do educador Darcy Ribeiro, que retrata a situação educacional brasileira não como crise, mas como um projeto que pretende tornar hegemônico o não criticismo.
Segundo a visão de Marilena Chauí, renomada filósofa brasileira, o fanatismo presente no país seria fruto de um “ódio ao pensamento”, onde não se diferencia o falso do verdadeiro. Ancorada em La Boétie, intelectual e filósofo francês que discutiu o que gerava a aceitação do povo em relação aos poderes tirânicos, abrindo mão de sua própria liberdade, Chauí finaliza: a população faz o poder do tirano, que faz-se autoritário.
Em conclusão, deve-se estimular o debate de ideias, o diálogo construtivo, fomentar o ensino de Ciências Humanas contra a obscuridade dos preconceitos dos fanáticos, a democracia frente aos atos antidemocráticos e por fim, a valorização do pensamento diverso, pois a corrente única de pensamento mostra-se um perigo extremado no século XXI.
Sobre Guilherme de Andrades:
Professor/Historiador, especialista em História e Geografia do Brasil, bem como em Metodologias do Ensino. Possui certificação USP sobre Geopolítica Contemporânea.













