Crônica
José Carlos Santos Peres
Recomendações de praxe, com capítulo especial para o lixo: se colocar antes do caminhão o gato arranha os saquinhos. Se demorar, o lixeiro passa...
Ajeitou o coque na piranha, renovou o desodorante, verificou o ajuste do short branco e sorriu para o espelho: não suporta batom tingindo os dentes.
- Durmo na casa de Valquíria a comida tá na geladeira, fiz a maionese que você pediu. Volto amanhã... E num fique aí vendo esse Curintia que depois te dá batedeira e você não dorme direito... O remédio para o coração tá na gavetinha. Não estou levando celular. E não se esqueça do lixo.
Bateu o portão, com certo alarde.
A casa no silêncio. Gosta de solidão. Mas naquela noite, com a micareta na Concha Acústica não havia como ficar esparramado no sofá.
Meteu-se, então, numa regata, herança da última excursão. Um calção colorido, saído do fundo do passado. Apertou o cordão para disfarçar a barriga. O velho tênis de guerra, o meião preto e branco, um lenço para segurar os cabelos inexistentes e a carteirinha do INSS.
Diante do espelho: doutor, se não me engano meu coração é corintiano... Olha a Mangueira aíííí, geeente... Dedinhos para cima, e a pança chacoalhando para os lados, para frente e para o alto.
Recolheu o cão na fartura de ração, apagou as luzes, fechou o botijão e bateu o portão, sem alarde.
O coração saindo pela boca, que não é mais garoto para essas coisas... Foi de vodca, para dar samba. A bebida devolveu-lhe a paz. O olhar varreu o recinto:
- O brotinho quer ser minha colombina por uma noite só e nada mais?
O aparelhinho nos dentes reluziu:
- Ah? O que disse tio? Colombiana? Não! Brasileira, tio... Do Primec.
Dançou uma dança estranha; os demais riram. Mandou mais uma vodca; outra e outras. Se soltou de vez. A menina descendo, rebolando e subindo...
Ele, indiferente à banda, cantava a sua música: eu sou aquele pierrô, que te abraçou, que te beijou, meu amor...
A menina foi descendo, rebolando e subindo...
De repente sente as pernas fraquejarem, o suor frio, as mãos trêmulas; lembra-se do Vasopril para o coração...
A menina descendo, rebolando e subindo.
Acordou no outro dia, no hospital, ao lado da mulher, docemente irritada:
- Você “se esqueceu se” de colocar o lixo na rua, meu velho...













