Muito se fala em “autismo leve” como se essa expressão fosse suficiente para explicar a realidade de quem vive no espectro. Mas a ciência é clara: não existe autismo leve. O que existe é o Transtorno do Espectro Autista, com diferentes manifestações, necessidades e níveis de apoio.
Estudos indicam que cerca de 70% das pessoas autistas apresentam ao menos uma condição associada, como ansiedade, TDAH, distúrbios do sono ou dificuldades sensoriais — mesmo aquelas consideradas, socialmente, como “de alto funcionamento”. Ou seja, a ausência de déficits visíveis não significa ausência de sofrimento.
Pesquisas também mostram que aproximadamente 40% a 50% dos autistas com fala funcional relatam altos níveis de ansiedade, muitas vezes mascarados por comportamentos socialmente aceitáveis. Esse esforço constante para se adaptar é conhecido como masking e está associado a maior risco de exaustão emocional e sofrimento psíquico.
Quando o termo “leve” é utilizado, ele tende a invisibilizar essas demandas. Não por acaso, dados apontam que mais de 60% dos adultos autistas só recebem diagnóstico tardio, justamente por não se encaixarem nos estereótipos clássicos do transtorno. Isso resulta em anos sem suporte adequado, intervenções ou compreensão.
O autismo não é uma escala que vai do leve ao grave. É um espectro complexo e dinâmico. A própria classificação diagnóstica atual fala em níveis de suporte, que podem variar ao longo da vida e conforme o contexto. Uma pessoa pode ser funcional em uma área e necessitar de apoio significativo em outra.
Reduzir o autismo à palavra “leve” é minimizar vivências reais. É negar acesso a apoio, invalidar dores invisíveis e silenciar quem aprendeu a sobreviver se adaptando.
Dizer que não existe autismo leve não é exagero.
É ciência.
É respeito.
É humanidade.
Sobre a colunista:
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, TEA, Educação Especial e Inclusiva, com capacitação em TEA pela Universidade de Harvard. É mãe atípica, estudante de Fonoaudiologia e mestranda em Distúrbios da Fala, Linguagem e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
Atenção: Esta é uma coluna informativa. Em caso de dúvidas específicas, procure sempre um profissional qualificado.













