CRÔNICA
NESTA CHUVA, AQUELAS
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José Carlos Santos Peres
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É terça-feira e agora me vejo refletido na tela do computador como uma sombra estranha e difusa.
Chove!
Pouco se ouve de outros sons que não o da água mordiscando a lata da janela com passos de gato. Tudo é silêncio no entorno.
Havia a chuva do menino solto pelos campos; a chuva dependurada nos galhos das árvores de um pomar com laranjas, pêssegos, nêsperas e tangerinas, com os quais brincávamos de fazê-la se soltar para uma nova chuva dentro daquela.
Todas as chuvas me fizeram ao longo dos anos... As das enxurradas deslizando céleres a caminho de um rio. O rio mais gordo alargando margens, bebendo vazios.
Um monjolo ganhando movimentos com suas batidas ecoando surdamente na geografia em desalinho daquelas margens encharcadas; um galo falando de quintais a outros galos, numa melancólica sinfonia, que tão bem o poeta Cabral orquestrou, quando havia “galos e quintais”.
Todas aquelas chuvas banhando dias e noites.
Todas aquelas chuvas...
À noite, a chuva chovendo descalça, infiltrando-se pelas frestas de telhas de barro sob um manto de humus e cheiro de argila envelhecida, deixando no alto uma nevoa-fantasma revelando-se em contornos à luz mortiça de um velho abajur.
É terça-feira e agora me vejo escondido da chuva.
O menino que me habita não sabe mais chover, perdeu o voo que o alçava; não sabe mais do rio, do monjolo, dos quintais com seus galos, das margens enlameadas e fartas com aqueles achados das enxurradas.
É terça-feira e chove...
E o homem já não sabe mais chover, que suas lágrimas são sal.













