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Não sei responder sobre a utilidade da cultura, mas sei que a ignorância serve a quem deseja apatia

Por Jornal A Bigorna 19/10/2025 13:00:00 584
Não sei responder sobre a utilidade da cultura, mas sei que a ignorância serve a quem deseja apatia

Você se considera uma pessoa culta? Sua família diz algo a respeito da sua erudição (ou da falta dela)? Para você, um ser humano é mais confiável se for mais culto? Você vê utilidade nisso?

Todas as pessoas possuem uma cultura e estão inseridas em sistemas de significados e símbolos. Um camponês analfabeto da Rússia czarista, preso à servidão em pleno século 19, era portador de uma grande e antiga cultura. Quando aparece o termo “culto”, porém, o senso comum supõe o domínio de ferramentas mentais e de uma memória quase sempre associada ao legado europeu. No senso comum, uma pessoa culta fala línguas (importante alguma ser morta), conhece grandes obras da literatura, aprecia música erudita, cruza dados históricos e literários, sabe apreciar obras de arte nos grandes museus, possui uma biblioteca razoável e vai a filmes de “arte”. Esse é o quadro estereotipado de uma pessoa culta urbana neste momento.

Os traços anteriores não apresentam clara tendência política. Há cultos e ignorantes pela direita e pela esquerda. Exemplo: Marx era muito culto, Lênin um pouco menos e Stálin quase nada. Isso não é um julgamento político ou uma diminuição da inteligência estratégica de cada um dos citados. Stálin era intelectualmente menor do que Trotsky e conseguiu eliminá-lo do jogo político. A mesma gradação existe em qualquer recorte político. Nossos generais-presidentes? Castello Branco era mais culto do que Costa e Silva; Geisel mais do que Médici. Período de volta ao Estado de Direito? FHC mais ilustrado do que Lula, Temer mais culto do que Bolsonaro. Em todos os casos citados, isso não representou maior capital político ou melhor domínio do eleitorado, apenas um registro de que, por formação, Temer seria capaz de refletir sobre um conceito de hermenêutica jurídica com mais densidade do que seu sucessor imediato. Afinal, erudição ajuda ou atrapalha no trato político?

Sabemos que é possível ser vencedor de eleições ou até manter o poder sem uma cultura formal sólida. Sabemos também que os bilionários do mundo não são, necessariamente, pessoas versadas na Ilíada. Mesmo assim, há inteligências de mercado, análise de poder e outras habilidades que não implicam conhecimento clássico. Afinal, tem utilidade a cultura formal?

No mundo tradicional até há poucas décadas, a cultura formal era um mecanismo validador. Se alguém citasse Shakespeare ou Dante, era confiável, tinha formação, e era considerado apto a pertencer a um círculo de pessoas sofisticadas. Velhas elites sempre atacavam as novas pela suposta “falta de cultura” dos que chegaram depois. O conjunto incluía modos à mesa, algumas viagens, uso da língua, roupas e conversas que tratassem de temas “sofisticados”. Essas críticas ainda ecoam em comentários do Leblon à Barra da Tijuca (RJ) ou do Jardim Europa ao Anália Franco (SP). Desde Molière ou Petrônio, o novo rico/novo nobre é ironizado pelo velho. A cultura era um mecanismo de defesa, de preservação de uma dignidade aristocrática que não poderia ser adquirida com o dinheiro. Cultura era um anel protetor.

No Ensino Médio, ao falar da Teogonia de Hesíodo, meus alunos perguntavam de forma prática: para que serve isso? Minha resposta era cópia do que eu tinha ouvido de um velho professor de Filosofia da USP: não serve, pois não é servo; porém educa e melhora seu olhar. Ninguém questiona a utilidade da panela, ela serve para seu propósito essencial. Porém, a panela será panela, encerrada no limite da sua utilidade pragmática. A cultura liberta, se bem conduzida. Ela diverte, aprimora, faz companhia, elabora significados, torna o mundo fascinante pelas ligações que recria a cada instante. A cultura aumenta seu olhar. Interesses nos tornam interessantes. A máquina de significados do mundo fica um pouco menos opaca e posso olhar por e através de cultura. O olhar imanente de tudo (o que está contido na experiência de cada ser concreto e da sua experiência imediata) resolve coisas imediatas e é bom, apenas não consegue produzir a consciência dos andaimes com os quais construímos o chamado “real”. A cultura explode a noção de “sempre foi assim”. O homem inculto funde significado e significante e torna eterno e natural o que é pura convenção histórica. Exemplo: o padre burro e o pastor ignorante anunciam que os homens devem usar calça e as mulheres vestido, pois isso é natural e desejável aos olhos de Deus. Ambos veneram Jesus que jamais usou uma calça e que, com seu cabelo comprido e túnica, talvez não tivesse lugar naquela assembleia pura e eterna das suas igrejas. A cultura introduz o relativismo histórico, a dúvida, a crítica, impede o essencialismo (que tende ao autoritarismo) de quase todas as instituições de poder. Não sei exatamente responder à questão sobre a utilidade da cultura. Sei, com certeza, que a ignorância serve muito bem a quem deseja pessoas apáticas e submissas ao púlpito ou ao palanque. O inculto é capaz de duvidar de vacinas porque seu zap lhe revelou a verdade que os outros ignoram. Se nada convenceu, um último e desesperado argumento: pessoas com mais repertório aperfeiçoam mais o prompt do ChatGPT. Tenho esperança nos livros, ainda.

 

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

 

 

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