Os desdobramentos recentes das investigações contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) voltam a escancarar uma realidade incômoda: o crime organizado no Brasil não atua apenas à margem do Estado, mas se infiltra em suas estruturas, alcançando agentes públicos, setores regulados da economia e, de forma ainda mais grave, integrantes das próprias forças de segurança.
A operação deflagrada nesta quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026, pela Corregedoria da Polícia Militar, com mandados de busca, apreensão e prisão contra policiais militares, é mais um capítulo que deve alertar a sociedade. As investigações apontam que agentes da PM teriam atuado na segurança privada e na gestão patrimonial de empresas concessionárias de transporte coletivo em São Paulo, utilizadas como instrumentos de lavagem de dinheiro oriundo do tráfico de drogas, roubos e outras atividades criminosas ligadas ao PCC.
Não se trata de um desvio isolado ou de casos individuais de corrupção. Os autos indicam que policiais presos também prestaram serviços diretos a integrantes da facção já identificados em investigações do Ministério Público, evidenciando uma simbiose perigosa entre o crime organizado, segmentos da economia formal e aqueles que deveriam garantir a lei e a ordem. Quando agentes do Estado passam a operar como parte da engrenagem criminosa, o dano ultrapassa o âmbito penal e se converte em uma crise de legitimidade institucional.
Esses episódios reforçam a constatação de que o PCC construiu, ao longo dos anos, uma estratégia sofisticada de expansão, baseada não apenas na violência, mas na infiltração silenciosa em estruturas públicas e privadas. A captura de serviços essenciais, como o transporte coletivo, revela como o crime organizado passou a operar também como ator econômico, explorando concessões públicas e fragilidades regulatórias.
Diante desse cenário, operações como a desta semana são necessárias, mas claramente insuficientes se tratadas como respostas episódicas. O Brasil carece, com urgência, de uma política nacional de enfrentamento ao crime organizado que seja integrada, permanente e orientada por inteligência. É imperativo blindar as instituições responsáveis pelo combate ao crime contra influências políticas e econômicas deletérias, além de criar mecanismos formais e contínuos de articulação entre forças de segurança, órgãos de controle e o sistema de Justiça.
A infiltração das forças de segurança é apenas a ponta do iceberg da presença do crime organizado no Estado brasileiro. Sem mecanismos robustos de governança, controle interno e responsabilização, o poder público continuará vulnerável à captura por organizações criminosas cada vez mais estruturadas e profissionalizadas.
Análise por Rafael Alcadipani
Professor Titular da FGV-EAESP e Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública













