O Brasil real vive dias difíceis nas ruas, nos ônibus e trens lotados, nas motos dos trabalhadores por aplicativo que cruzam as cidades 24 horas por dia, nas cozinhas de quem vende brigadeiro para complementar a renda e nos corredores dos supermercados, onde as famílias, premidas pela carestia, com frequência têm de decidir o que põem ou não no carrinho. Esse país, contudo, parece invisível para boa parte da chamada classe política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seus principais adversários na eleição e uma parcela expressiva do Congresso orbitam um outro planeta, chamado Brasília, um lugar a anos-luz de distância do cotidiano dos trabalhadores.
Esse alheamento da realidade fica ainda mais evidente no debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala de trabalho 6x1. Vendida como garantia de mais descanso, lazer e tempo com a família, a proposta ignora um dado cruel do mercado de trabalho. Uma pesquisa Quaest mostrou que nada menos que 84% dos brasileiros têm mais de uma atividade profissional para complementar a renda. Vale dizer, a esmagadora maioria dos trabalhadores não terá um dia adicional para brincar com seus filhos no parque ou simplesmente descansar em casa. Terá um dia a mais para fazer “bicos”.
Os defensores da PEC fingem ignorar que a redução forçada do número de horas de trabalho sem aumento correspondente da produtividade não vai melhorar a condição de vida de ninguém. Não há mágica. Mais cedo ou mais tarde, os resultados do eventual fim da escala de trabalho 6x1, inevitavelmente, serão salários mais baixos, informalidade crescente e avanço da precarização do trabalho. Ainda assim, é espantoso como há membros do governo e parlamentares se acotovelando no Congresso para posar de benfeitores dos trabalhadores brasileiros. Cai nessa esparrela quem quer.
Ainda segundo a Quaest, 51% dos trabalhadores relatam sentir cansaço ou emoções negativas, como mostrou o Estadão no domingo passado. Não é difícil entender por quê. O brasileiro acorda cedo, passa horas no transporte público, peleja com uma inflação de alimentos renitente, juros altos no crédito pessoal e serviços públicos não raro precários. Depois dessa faina diária, ainda precisa se dedicar a “bicos” para mal empatar as contas do mês.
Lula responde a essa realidade com paliativos de curtíssimo prazo, de evidentes contornos eleitoreiros. A reedição do Desenrola, a expansão de crédito fácil, os velhos estímulos setoriais e programas de incentivo ao consumo vêm embrulhados como grandes políticas sociais. Mas, a despeito de um certo alívio imediato, está-se criando uma massa de endividados que mal chegará a 2027 com sua vida reequilibrada. Eis o velho Lula de sempre, provando, mais uma vez, que quem nasceu palanqueiro jamais será estadista.
O mais impressionante é que, diante desse deserto propositivo, a oposição tampouco oferece algo diferente e inspirador. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), até aqui o principal adversário do petista na disputa presidencial, pouco ou nada apresenta sobre a degradação do mercado de trabalho, decerto por absoluta incompetência e desconhecimento. E assim o debate público permanece prisioneiro das rinhas ideológicas e das escaramuças nas mídias sociais, enquanto os trabalhadores seguem como meros coadjuvantes de seu próprio drama.
Como se habitassem outro planeta, políticos de diferentes cores partidárias falam dos trabalhadores sem conhecê-los. Não compreendem as mudanças do Brasil e do mundo. Tratam da redução da jornada de trabalho sem compreender que a maioria dos brasileiros já se vê enredada por jornadas múltiplas. Oferecem programas de acesso ao crédito sem admitir que boa parte da população tem se endividado para pagar despesas básicas do dia a dia, não para comprar uma geladeira nova.
É lamentável essa cegueira coletiva em pleno ano eleitoral. Não faltam problemas a serem discutidos por gente genuinamente interessada em construir um Brasil que proporcione vida digna para todos. Mas Brasília continua debatendo o País como se fosse de uma galáxia distante.(Do Estado de SP)













