Crônica
ROSAS PARA A SANTA
José Carlos Santos Peres
Do calendário da Pirelli cai sem estardalhaço a última folhinha de um ano qualquer. Dias de conquistas poucas e derrotas muitas, naqueles tempos de aridez.
Numa manhã de janeiro, mãe aparece com um novo e diferente calhamaço, acompanhado de um livreto da Farmácia do seu Orlando Cortez exaltando os benefícios proporcionados pelo Biotônico Fontoura.
Está na hora de o antigo ser definitivamente descartado, para dar vez ao seu substituto que traz na capa o coração repartido de Jesus e Maria.
A mãe nos diz, aos três meninos agarrados em sua saia: um santo para cada dia, a começar pela Santa Maria, a mais celebrada de todas, porque mãe de Deus.
De lambuja, o tipo de lua que define nossos plantios e colheitas ao longo de mais um ano. E até a tábua de marés de outros oceanos, que por aqui somos de águas paradas.
Não ouso dizer-lhe que preferia o calendário antigo, o daquela moça loira de sorriso largo, shortinho exibindo as pernocas, mãos cruzadas sobre os seios, deixando escapar sonhos e desejos, tendo bem ao fundo um Studebaker Champion, 51.
A mãe se sente confortável com a troca feita; não precisará mais buscar informações de César de Alencar, na Rádio Nacional, sobre qual o dia de hoje, da semana, do mês e do santo.
É dela, agora, a responsabilidade de, antes do sol nascer, enquanto faz girar o moinho para o café, no silêncio da casa grande da Fazenda de Diamantino, retirar a folhinha, consultar o santo do dia e, com o devido respeito, benzer-se diante do Sagrado Coração na esperança de mais ovos no galinheiro, mais leite no curral e que a geada não acabe com a sua horta.
Não sei bem do porquê desses flashes da memória, agora que consulto na tela fria do celular qual o dia de hoje, sem me interessar pela tábua e pelo santo.
Acho que aquele menino está a me lembrar que não pode deixar de encomendar rosas, que no dia 22 de maio é o dia de Santa Rita de Cássia, a Protetora de Nossas Mães.













