Uma das perguntas que mais escuto é: "Se uma criança é autista, isso significa que um dos pais também é?"
A resposta é: não necessariamente.
Hoje sabemos que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) possui uma importante influência genética. Diversos estudos mostram que existem fatores hereditários envolvidos, mas isso não significa que todos os pais de crianças autistas também sejam autistas.
Em algumas famílias, um dos pais pode apresentar características leves do espectro, conhecidas como fenótipo ampliado do autismo. São pessoas que, por exemplo, sempre tiveram dificuldade em interações sociais, interesses muito específicos, necessidade intensa de rotina ou sensibilidade sensorial, mas nunca receberam um diagnóstico. Em outros casos, nenhum dos pais apresenta essas características de forma perceptível.
Além da genética, o desenvolvimento do autismo é considerado multifatorial. Isso significa que diferentes genes podem estar envolvidos, juntamente com fatores biológicos que ainda continuam sendo estudados pela ciência. Portanto, não existe uma única causa para o TEA.
É importante lembrar que o diagnóstico de uma criança não deve servir para diagnosticar automaticamente seus familiares. Da mesma forma, perceber algumas semelhanças entre pais e filhos não é suficiente para afirmar que alguém também seja autista. Cada pessoa precisa ser avaliada individualmente por profissionais qualificados.
Nos últimos anos, muitos adultos buscaram avaliação após o diagnóstico de seus filhos. Em vários casos, descobriram que também faziam parte do espectro. Em outros, perceberam apenas alguns traços, sem preencher os critérios para o diagnóstico.
Mais importante do que procurar um culpado é compreender que o autismo não é causado pela educação dos pais, pelo carinho recebido ou por qualquer atitude da família. O conhecimento científico já demonstrou que essa ideia é um mito.
Quando uma criança recebe o diagnóstico de TEA, toda a família inicia uma jornada de aprendizado. Entender melhor o funcionamento do cérebro, respeitar as diferenças e oferecer apoio adequado faz muito mais diferença do que tentar encontrar uma única explicação para a origem do autismo.
A informação baseada em evidências continua sendo uma das maiores ferramentas para combater preconceitos e promover inclusão.
Sobre a colunista:
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, TEA, Educação Especial e Inclusiva, com capacitações em AUTISMO pela Universidade de Harvard, The American Academy of Pediatrics (AAP) e PANAACEA Argentina. É Autista, mãe atípica, estudante de Fonoaudiologia e mestranda em Distúrbios da Fala, Linguagem e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
Atenção: Esta é uma coluna informativa. Em caso de dúvidas específicas, procure sempre um profissional qualificado.













