Poesia
TESTAMENTO
José Carlos Santos Peres
Do que o silêncio permite nessa hora de sombras e sondas
resgato do calendário o tempo com suas luas e auroras
e tábuas de mares distorcidas pelos ventos do descuido.
De destino talvez as anamorfoses dos meus atos
na geografia torta de meus passos;
erros vieram com maças ofertando serpentes
ao andarilho que fui quando o caminho definia manhãs
e eu sentinela de quartéis abandonados desperdiçava o tempo
e o tempo nada mais era que passaporte falso de partida.
Nessa hora que o silêncio permite entre sombras e sondas
testemunho o sal do mar na primeira descoberta menino
tateando pés na areia: o horizonte me era tão possível...
A morte fez a primeira advertência na palma do paladar,
das mais sutis que outras foram facas afiadas.
Faço na agonia dessa hora liturgia de momento:
secura de mãos no aceno que nunca houve,
indiferença de passos num cais de gaivotas doentes;
o que trago para testemunhar cicatriza a parede do meu peito;
presas estão aves de rapina sem mais garras para se soltarem.
Foi-se o cavalo selvagem dos meus pés e as mãos denunciam hoje
o vazio de parir um pertencimento que nunca tive;
que não tive quintais e nem rosas e nem esquinas.
O sal sugado foi a primeira reprimenda a quem buscava partir,
depois tantas camas visitadas e cadáveres de amores insepultos.
Do meu Testamento não retiro pontes e navios destroçados,
a culpa é para ser parida até o último sangue até o último sal.
Parto com côdeas recolhidas de janelas disputadas com pardais;
o choro triste de minhas putas tristes que alguém poetou
e os noturnos de Chopin nas horas em que saltava do 12º andar.
São as miudezas que me confortam nessa hora de sombras e sondas:
didática de manhãs pastoreando esquinas;
desencontros e beijos suicidas sob marquises e chuvas;
imponência de casarios e sutileza de açucenas em varandas.
O que fica desse ofertório não se escreve em Testamento de papel passado,
está nas dobras desses olhos que tantas mortes sepultaram antes dessa;
decifrá-los é o enigma que ofereço aos meus: não peço perdão e nem piedade;
se tudo tive aqui tudo fica: as manhãs, o pão, as mulheres e as gaivotas;
o que levo é o intangível da epifania do pêssego ao orvalho numa manhã
em que menino caminhava ao mar para abraçar o horizonte que me fora salgado.













