Jornal A Bigorna
Jornal A Bigorna
Jornal A Bigorna
  • NOTÍCIAS
  • LITERATURA
    • Detetive Tango
  • LITURGIA DO ANDRÉ GUAZZELLI
  • PALANQUE DO ZÉ
CLOSE
  • SEC
  • FEAP
O Palhaço

O Palhaço

Por Jornal A Bigorna 22/01/2018 20:36:00 3921
O Palhaço

Episódio 1

A Polícia não tinha pistas do assassino há quase um ano. Embora tudo tivesse sido disponibilizado, desde as últimas tecnologias, nada e ninguém, apesar de todo o esforço fora detido ou sequer interrogado.

Era Natal.

O delegado do setor de Homicídios estava fechando sua sala. Tinha alguns presentes à mão e sua esposa e filha com a qual havia tido um forte desentendimento no dia anterior o aguardavam em casa. Sua filha, pensava, aturdidamente sem parar; precisava pedir-lhe desculpas. Era apenas uma jovem, e, como ele já fora um dia jovem, sabia que os erros eram naturais naquela idade.

Estava cansado demais.

Brundel estava tão esgotado que não via a hora daquele ano acabar. Pressões, imprensa, familiares, enfim tudo e todos em cima dele por causa da morte misteriosa de uma moça de 24 anos.

Àquele crime havia consumido suas energias. A vítima, degolada teve todas as partes do corpo picadas e enviadas à família, justamente na noite de Natal. Já os olhos foram enviados numa caixa de correio ao próprio delegado.

O crime, depois teve as manchetes em todos os jornais, principalmente quando um policial inescrupuloso ‘vazou’ o áudio da voz sinistra, que ficou conhecido como “O Palhaço”.

Àquilo o afligia.

Um ano.

Com seus quase 30 anos como policial, nunca vira nada igual. Tamanha selvageria e torpeza.

Uma crueldade sem limites. Além dos detalhes sórdidos que o assassino infligira à vítima.

Pobre moça pensou enquanto descia os degraus rumo à liberdade.

Fechou a porta principal e seu celular tocou.

Olhou.

Era da central. Nada melhor do que estragar uma noite natalina recebendo uma ligação como aquela.

Com certa dificuldade atendeu.

Em poucos minutos desligou. As sacolas caíram. Sua mão ficou trêmula e a cabeça não parava de girar.

Estacado tentou ligar para o chefe dos investigadores, no entanto, o celular estava desligado.

Num frigir de tempo, outro toque.

Uma voz.

Uma mensagem. A voz era de um homem, mas estava desfigurada, graças a aparelhos que alteravam a voz.

Uma risada sinistra de palhaço que ouvira um ano atrás.

Era ele.

Depois de um interlúdio de um ano, ele voltara a ser mais um episódio em sua já desgastada vida.

A mensagem foi breve e sinistra.

Um local... Um nome... Um pedido de socorro e mais nada. Mas a voz soara-lhe familiar; uma voz doce, meiga que só ele conhecia de um jeito especial.

Saiu correndo e entrou numa das viaturas. Ligou a sirene e saiu como um louco percorrendo as ruas de São Paulo que já estavam vazias.

Pouco tempo depois parava defronte a um depósito abandonado. Arma em punho teve pouco trabalho para arrombar a porta.

O depósito era grande e estava completamente vazio. Com a ajuda de uma lanterna começou a vasculhar.

Naquele momento sentiu medo.

Começaria tudo de novo?

Àquilo o deixou nervoso e perturbado. Foi até o fundo como a voz misteriosa havia lhe passado as informações.

A porta, logo à frente, estava semiaberta.

Devagar a abriu. O escuro só foi quebrado pela luz da lanterna que colocara junto à pistola em mãos.

Lentamente caminhou.

À frente uma banheira branca. Passo a passo se aproximou.

Olhou fixamente.

Seus olhos quase saltaram.

Não podia ser. Não aquilo; não ela. Sentiu-se mal e cambaleou voltando para trás.

Tudo...

Tudo menos aquilo.

Respirou fundo e voltou a olhar. Ao lado como sempre, uma câmera filmava tudo. Fora assim da outra vez. Ele filmava tudo e deixava o horror para quem quisesse assistir.

Desta vez, o impacto foi maior e começou a chorar.

Tudo começou a rodar.

Rodar e rodar e rodar.

O celular tocava convulsivamente.

Atendeu e ouviu uma risada espalhafatosa e depois uma voz lhe desejando: ‘Feliz Natal’.

O barracão abandonado ficava ao lado de um desfiladeiro alto e profundamente sinistro. A vista da cidade era densa, devido à altura. Naquele momento não via nada. Somente luzes das casas e apartamentos.

Lágrimas escorriam de seu rosto. Por alguns segundos pensou que não haveriam outras investigações. Nada mais. Chegara a seu limite. O corpo lá dentro era a perfeita combinação de um final.

Não haveria mais Natal para ele. Olhou o céu semiestrelado e sentiu que a vida lhe pregava peças. O celular voltou a tocar. Olhou. Era sua esposa. Desligou e jogou-o penhasco abaixo.

Por alguns minutos a lembrança de toda sua vida veio à tona.

Sentiu a vontade de gritar adeus.

Não gritou.

Novamente olhou para baixo. Soltou a arma que ruiu quicando ao chão. Ato contínuo soltou seu corpo penhasco abaixo.

Agora estava livre e voava caindo sob o nada até chegar a lugar algum.

Por André Guazzelli

 

 

 

 

 

 

O Palhaço

Compartilhar

Copiar link

E-mail

WhatsApp

Telegram

Facebook

Linkedin

X

Bluesky

Veja mais
Outras Notícias
Crônica
O TAMANHO DA ENCRENCA
21-maro-2026 88
Liturgia do André Guazzelli
Roberto Araujo poderá entrar para a história como o 3º prefeito a enfrentar os problemas das enchentes em Avaré
21-maro-2026 79
Artigo
Autismo nível 1, 2 e 3: você sabe a diferença?
21-maro-2026 632
Palanque do Zé
Palanque do Zé #398 – Obrigado, Chuck!
21-maro-2026 99
Artigo
História e Literatura: Uma interface
21-maro-2026 80
Avaré
USF Brasil Novo promove ação de saúde do “Março Lilás” com atendimentos gratuitos
21-maro-2026 68
Justiça ⚖
Relatórios do Coaf viram “mina de ouro” para corrupção policial em SP
21-maro-2026 65
Nacional
Preço do diesel subiu 20,4% nos postos do Brasil desde o início da guerra no Irã, aponta ANP
21-maro-2026 74
Administração Pública
Avaré terá interdição parcial em ruas do Centro nesta segunda (23) para obras contra enchentes
21-maro-2026 96
Avaré
Avaré recebe 500 cestas básicas e reforça rede de apoio às famílias em vulnerabilidade
21-maro-2026 85
Siga-nos
Facebook
Instagram
Whatsapp

Publicidade

  • fsp
  • inimed-covid-19
  • atpq
  • mare
  • cameras
  • FEAP
  • SEC-aquatico-
  • pontodentes
  • onecenterlateral
  • cafe
  • acia
  • arcoiris
  • SOS CARTUCHOS
  • testando
INFORMAÇÕES DO JORNAL
INFO

Jornal A Bigorna

Jornal eletrônico- Avaré e Região
contato@jornalabigornaavare.com.br
www.jornalabigornaavare.com.br

Categorias
C
  • Literatura
  • Esporte
  • Cultura
  • Política
  • Geral
  • Polícia
  • Palanque do Zé
  • Saúde Pública
  • Artigo
  • Editorial
  • Educação
  • Papo com a Magali
  • Administração Pública
  • Avaré
  • Internacional
  • Nacional
  • Entrevista
  • Região
  • Política Nacional
  • Política Internacional
  • Saúde
  • Crônica
  • Liturgia do André Guazzelli
  • O Palhaço
  • Detetive Tango
  • Conto
  • Poesia
  • Moda
  • Poesia
  • Acidente
  • Brasil: Polícia
  • São Paulo
  • Caso de Polícia - SP
  • Justiça ⚖

© Copyright 2025. Todos os Direitos reservados. | Desenvolvido por Officeweb

  • INÍCIO
  • Política de privacidade
  • NOTICIAS