Durante muito tempo, o autismo foi cercado por dúvidas, mitos e explicações simplistas. Ainda hoje, muitas pessoas se perguntam: “Mas afinal, de onde vem o autismo?”. A ciência já avançou bastante nessa resposta — e o que se sabe hoje é claro: o autismo não surge de um único fator e muito menos “do nada”.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento, reconhecida por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e descrita nos manuais diagnósticos atuais, como o DSM-5-TR da Associação Americana de Psiquiatria. Isso significa que suas bases se formam muito cedo, ainda durante o desenvolvimento do cérebro, especialmente nos primeiros estágios da gestação.
Pesquisas publicadas em periódicos de alto impacto, como JAMA, Biological Psychiatry e The Lancet, mostram que a genética exerce um papel central no desenvolvimento do autismo. Não existe um único “gene do autismo”, mas sim a interação de múltiplos genes que influenciam a forma como o cérebro se organiza, se conecta e se desenvolve ao longo do tempo.
Além da genética, estudos também investigam fatores biológicos que podem atuar como moduladores desse processo, como intercorrências gestacionais, condições metabólicas maternas e fatores perinatais. É fundamental esclarecer que esses elementos não causam o autismo de forma isolada, mas podem interagir com uma predisposição genética já existente, como apontam pesquisas populacionais amplas conduzidas em diferentes países.
Da mesma forma, a ciência já estabeleceu com clareza o que não causa autismo. Grandes revisões sistemáticas e estudos com milhões de participantes, conduzidos por instituições como o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e publicados na revista Vaccine, demonstram de forma consistente que não existe relação causal entre vacinas e TEA. Afeto parental, estilo de criação ou experiências emocionais também não estão entre os fatores responsáveis pelo desenvolvimento do autismo.
Outro aspecto essencial é compreender que o autismo se manifesta de maneira única em cada indivíduo. Essa diversidade está diretamente relacionada às diferentes formas de desenvolvimento cerebral dentro do espectro, o que explica a ampla variação de habilidades, desafios e necessidades observadas entre pessoas autistas.
Buscar compreender a origem do autismo não é procurar culpados, mas ampliar o conhecimento. Informação baseada em evidências científicas contribui para diagnósticos mais precoces, intervenções mais adequadas e uma sociedade mais preparada para acolher a diferença com respeito e responsabilidade.
O autismo não surge do nada. Ele faz parte da diversidade humana e precisa ser compreendido à luz da ciência, da empatia e do compromisso com a inclusão.
Sobre a colunista:
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, TEA, Educação Especial e Inclusiva, com capacitação em TEA pela Universidade de Harvard e Síndrome de Tourette pela The American Academy of Pediatrics (AAP). É mãe atípica, estudante de Fonoaudiologia e mestranda em Distúrbios da Fala, Linguagem e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
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Atenção: Esta é uma coluna informativa. Em caso de dúvidas específicas, procure sempre um profissional qualificado.













