*Por Guilherme de Andrades
A memória e a temporalidade são temáticas primordiais aos historiadores, são construtos socioculturais pautados nos pluralismos, enfoque de intermináveis e brilhantes análises, como na letra do consagrado cantor baiano, precursor da MPB, Caetano Veloso, que define o tempo: “...És um senhor tão bonito … Compositor de destinos, Tambor de todos os ritmos…”, a mensagem essencial é o tempo como um grande orientador, um soberano na vida humana. Paralelamente, o historiador francês Marc Bloch (1886-1944), no século XX, abordou o campo da História como “Ciência dos homens (e das mulheres) no tempo”, alinhando a historicidade e o tempo.
Pode-se comparar: o microchip de um computador é o menor componente de uma máquina, possui capacidade de armazenar bilhões de dados e de realizar milhões de operações, funcionando assim como um “cérebro eletrônico”. Nesta analogia, o homem, todavia, não guarda todos os aspectos de sua respectiva vida na memória, apenas relembra informações via estímulos como: o sentir aromático de um perfume; ao ver um objeto ou pessoa e quando tem algo que deva ser feito, o já esquecido é retomado mentalmente. É conclusivo: a memória é composta com base no presente, devido a sensibilidade e racionalidade do homem em selecionar o necessário e o desejado.
No século XXI, em tempos de fake news, no qual o excesso de informações falsas é nítido, onde o errôneo, o superficial e o incompleto são dominantes, a difusão é ampla e em alta velocidade, onde a conexão com a contemporaneidade é excessiva e o com o passado histórico é quase desconexo e esquecido, não valorizando-se “as raízes” nacionais.
A partir do exposto, questiona-se: o que o brasileiro tem escolhido guardar em sua memória em relação à política, a cultura, bem como se há conscientização histórica nos cidadãos, estaríamos caminhando para uma sociedade “a-histórica”, sem análises a partir da historicidade conforme fontes científicas e historiográficas, sem rótulos ou preconceitos. A valorização do conhecimento histórico é urgente no Brasil. É célebre a frase “um povo que não conhece sua história, está fadado a repeti-lá”, o passado deve ser a base para a construção do presente e do futuro do Brasil, a materialidade para que se aprenda com os erros cometidos pelas gerações passadas. Concomitantemente, a educação paulista reduz a carga horária das Ciências Humanas nas escolas públicas: o incentivo à não reflexão é amplo.
Sobre Guilherme de Andrades: Professor/Historiador, especialista em História e Geografia do Brasil, bem como em Metodologias do Ensino. Possui certificação USP sobre Geopolítica Contemporânea.













