Crônica
HOJE SERÁ ONTEM
José Carlos Santos Peres
“Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite...” (Manuel Bandeira)
XXX
A noite dorme seus fantasmas pelos desvãos da cidade, a sombra das horas percorre em passos lentos as pedras da rua (qualquer rua) sempre nos conduzindo a um mesmo lugar.
Tantos já percorreram um mesmo caminho, e quantos ainda permanecerão tecendo o seu destino de ser e estar, até que um dia tudo será ontem na paisagem que hoje nos acolhe.
Serão outras as janelas abrindo-se ao mundo, novos traçados na geografia urbana, diferentes sons e ruídos percorrendo os espaços.
Nem mesmo o azul deste céu será o mesmo. E não mais estaremos por sobre essas pedras, pelas esquinas que nos são íntimas, como foram um dia ao afiador de facas, ao lambe-lambe espoucando seu farol.
(que do realejo monocórdico sorrindo à donzela em busca do seu recado no bico do periquito da sorte à espera do caixeiro com suas fitas, leques, lenços de seda e alfazemas?)
Sem esses cheiros, esse jasmineiro que se desmancha; a chuva que às vezes nos colhe de surpresa nos empurrando às marquises, a brisa que desarruma as folhas soltas brincando de ciranda pelas calçadas.
Um dia tudo será passado...
Alguns dos que aqui estamos ficaremos nos concretos frios dos bancos das praças, em tabuletas que se deixam ao óxido das ruas definindo um lugar; ficaremos em alguns registros históricos.
Seremos quadros indiferentes pelos corredores de casas e prédios, álbuns de fotografias esquecidos numa caixa qualquer, registro na lixeira eletrônica esperando pelo descarte.
E qual a importância dessas grafias, desses signos cheios de passado e vazios de perspectivas, se tudo será pretérito?
(lá vai o velho com seu cajado, sobretudo pesando-lhe os ombros, o caminhar trôpego conduzindo um lume tocando a pele da escuridão até desaparecer na névoa... E seria essa a imagem do tempo, do tempo que se vai, que se esvai para não mais voltar)
Tudo, um dia, será ontem, para que novos amanheceres se façam e a roda da vida continue a girar pelas pedras de alguma rua, de alguma dessas ruas que sempre nos levam a lugar algum.













