Antes de qualquer terapia, antes de qualquer método, antes de qualquer especialista… é dentro de casa que a criança começa a se desenvolver — ou a se calar.
Quando uma família recebe um diagnóstico de autismo, a primeira reação quase sempre é buscar ajuda profissional. Isso é natural, necessário e importante. Mas existe uma verdade que poucos dizem com clareza: nenhuma intervenção funciona plenamente quando a criança vive, todos os dias, em um ambiente que não acolhe, não entende e não sabe como se comunicar com ela.
A família não substitui terapia. Mas a família é o solo. E nenhum tratamento floresce em um solo rachado por estresse, culpa, brigas, comparações e cobranças.
Muitas crianças autistas não “desobedecem”. Elas se desorganizam. Não “fazem birra”. Elas entram em sobrecarga. Não “te ignoram”. Elas estão tentando sobreviver a um mundo barulhento, rápido e exigente demais. E é justamente nesse ponto que a família se torna o primeiro tratamento: quando aprende a enxergar além do comportamento.
O que mais evolui uma criança não é apenas a sessão semanal. É o que acontece entre uma sessão e outra. É a forma como ela é chamada. O tom de voz que recebe. A paciência no momento do banho. O respeito quando ela precisa de pausa. A previsibilidade da rotina. A brincadeira simples no chão da sala. O olhar que diz: “eu te entendo”, mesmo quando ela não consegue explicar.
Famílias que aprendem a ajustar o ambiente e a comunicação conseguem algo que nenhum protocolo sozinho consegue: segurança emocional. E segurança emocional é o primeiro degrau para linguagem, aprendizado e autonomia.
Por isso, se você é mãe, pai, avó, tia, cuidador: você não está “atrás” da terapia. Você é parte do processo. E quando a família muda, a criança sente. Quando a família se organiza, a criança responde. Quando a família aprende, a criança se abre.
O primeiro tratamento não é um lugar.
É um vínculo.
E o amor, quando vem com conhecimento, muda destinos.
Sobre a colunista:
Marcela Fernanda de Andrade é pós-graduada em Neurociência, TEA, Educação Especial e Inclusiva, com capacitação em TEA pela Universidade de Harvard e Síndrome de Tourette pela The American Academy of Pediatrics (AAP). É mãe atípica, estudante de Fonoaudiologia e mestranda em Distúrbios da Fala, Linguagem e Comunicação Humana.
Instagram: @neurofono_marcelaandrade
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Atenção: Esta é uma coluna informativa. Em caso de dúvidas específicas, procure sempre um profissional qualificado.













